quinta-feira, julho 26, 2007

Vermelha dor vertida

Eu não sabia ser quem eu era, sem encontrar o limite mais profundo de uma agulha, me feria vermelhamente.
Eu não sabia ser quem eu era, pousei a agulha sobre meus seios, fiz deles minhas mãos. Do objeto, cada ponta equilibrava-se nos pedaços daqueles enchaços de pele, que então se comunicavam. Quando solucei, o limite mais fino me invadiu, me feri vermelhamente.
Eu não sabia ser quem eu era, verticalmente e sem respirar, coloquei a agulha em meu umbigo. Segundo ilusórios, ela quedou para formar 30 graus com a superfície de pele mais próxima, minha barriga. Então insisti, um de meus dedos a manteve de pé, era outra passarela, agora forjada, mas sangrei verdadeiramente, me feri.
Eu não sabia ser quem eu era e ela deslizou com seu próprio peso por toda a minha perna esquerda. Não sei quem escorregava mais depressa, se ela ou meu vermelho escuro. Sei que pinguei e a agulha se banhou em gotas disformes. Minha mão direita, no chão, sentia o líquido morno quando a encontrou, estava ainda toda prateada... Me feri vermelhamente sem saber quem eu era.
Eu não sabia ser quem eu era, com o corpo perfurado a encostei em minha pálpebra esquerda, a minha pele mais fina a sustentou, por instantes. Não me feri. Tudo estava seco e, estéril, eu quase desfaleci.
Abruptamente enfiei a agulha dentro de meu olho esquerdo para depois fazer o mesmo com o direito. Me feri vermelha e cegamente. Então eu sabia ser quem eu era. E não vi mais o objeto, tão pouco pude constatar o meu sangue com a minha visão. Me feri vermelhamente enquanto descobria ser quem eu era: toda vontade de dor, cega.

(eu)Era e me criava em vermelha dor vertida.

3 comentários:

Gus disse...

sangue muito escuro é sinal de que está bebendo muito, hein ju! hahah! Bonito texto, parabéns!

Pri Lopes disse...

Original e criativamente bem desenrolado. Adoro!

Caito disse...

VocÇe faz ótimas prosas poéticas, imagens fortes e tudo, como já dito, muito bem desenrolado! Arrepiou.