terça-feira, julho 17, 2007

Um dia após o outro

Estava cheio dessa imundice que chamam rotina. Oh, traje diário! A rotina, que vestia como um moletom puído. Se tentasse passar três dias sem encarar a si mesmo no espelho... crescia barba. De resto, nem um pêlo a mais como novidade – no máximo um fio de cabelo ou outro, caía vez ou outra, mas era tão assim como descrito, que ele simplesmente olhava... e não enxergava que era dele. Pensava até que aquilo era a vida de alguém que lhe havia surrupiado o corpo para moradia, um parasita fantasma mal-resolvido com o marasmo da Terra; um imbecil apegado às coisas mundanas – patético! A ele, a quem ainda não havia sido dada a chance de morrer, cabia suportar o peso da alma de outro. Dessa consciência brotou uma empatia tal que o fez acender um charuto pela primeira vez. A primeira vez em trinta e sete anos - era tudo o que tinha. Sentiu que o outro se aliviara por instantes. Pequenos incentivos ao vício extraterreno, devia ser pecado, mas fazer o quê? A criatura emanava desejos quase obscenos. A cervejinha dos finais de semana fora substituída por um uísque noturno, soma-se a isso o fardo rotineiro: todas as noites um trago – exigência do mundo de lá. Um carteado para acompanhá-lo na humilde tentativa de distrair as horas. Traía a si mesmo. Apostava de vez em quando, perdia tudo – voltava para casa troteando entorpecido, e resmungava que o outro era muito ruim de jogo, que viveria morto miserável para sempre. Caminhava tropeçando nos ladrilhos tortos a caminho de casa, ignorando que a solidão fosse a única coisa a ouvi-lo. Ele quem? Ele estava ali dentro do corpo apertado, sentindo o hálito alcoolizado do falecido. Perguntou seu nome: nem um grunhido. Apelidou-o de Venâncio, mas sempre esquecia e o chamava de Aroldo. Certo dia, eram oito horas da manhã de domingo, eles ainda não haviam chegado em casa, os dois cantarolantes pelas ruas, pensou: esse é o meu camarada... Zeca! Mas qualquer que fosse o nome dado, esquecendo-se ou não, o fato é que estavam cada vez mais íntimos – casados: dormindo e acordando juntos?! Era melhor parar, parar de alguma maneira repentina. Que Venâncio era viciado em drogas e ele, por sua vez, era viciado em Venâncio. Decidiu tentar esquecê-lo: cerveja em vez de uísque; charutos não mais: cigarros. Era um tapa na rotina: ainda ia para o bar, mas era um botequinho sem frescuras, perto do terminal de ônibus – se voltasse a pé, temia dar de cara com o outro, que bem conhecia o caminho. Jogava dominó, ouvia música sem cantar – acreditava que o canto atraía os mortos para o lado de cá. Venâncio havia comentado sobre o permanente silêncio à sua volta. Pobre coitada alma penada! Era por ele que fazia isso, para libertá-lo procurava agora não reencontrá-lo. Mas - desconhecia o motivo - certa vez, acordou adoecido. “Deve ser a saudade...”, cogitou consigo. Internou-se em uma clínica, temendo que em sua casa o outro pudesse aparecer qualquer dia – era tão imprevisível! Recebeu, entretanto, a única visita de uma cristã que falava sobre a importância da vida, de qualquer vida, até mesmo a dele. Recusou ouvi-la. Vinham à mente lembranças do outro. Obteve alta em seguida – a enfermeira comovendo-se deixou escapar duas palavras: “pouco tempo”. Mas ele quase não ouvia nem dizia... Tão Ignorante de tudo, impregnado no cotidiano, esqueceu de respirar. Há quem diga ter sido proposital: suicídio. Quem sabe? Ele não sabia de mais nada. Chegou do outro lado e, por falar nisso, conheceu tantos Venâncios, Zecas e Aroldos, que os chamou de Liberdade. Mas - que nada! - eram vícios.

5 comentários:

Gus disse...

Pri, isso é a coisa mais dolorida e transparente que já li nesse espaço. Me tocou como um conselho de mãe depois que o filho já percebeu que eles eram para serem ouvidos e acatados (não que eu prcise de um destes agora, afinal ainda não tenho idade para ver que são necessários e úteis). Acho que sou seu fã! Meus parabéns! Beijos!

Diogo Lyra disse...

E que todos nós possamos manter aplacada a sede de nossas necessidades e superficialidades vitais!

André Toso disse...

Você escreve muito, garota

Alessuza Pires disse...

O marasmo de uma vida comedida é capaz de acabar com qualquer tipo de noção humana...
Algumas vezes há coisas tão pequenas e que fazem tanta diferença, mas que, pelo seu tamanho, não paramos para considerar. Esta é uma dessas coisas.
O texto está muito bem escrito.
^.~

Ju disse...

"A ele, a quem ainda não havia sido dada a chance de morrer, cabia suportar o peso da alma de outro"

As almas viraram rotina. Imundice. Era o suicídio o seu maior vício. Um dia matou o outro.

Maravilhoso, vou ler mais tantas vezes! Lógico que quero criar com vc.
Maravilhoso.