terça-feira, setembro 16, 2008

Despedida

Caros amigos e leitores do blog: uma notícia boa e uma ruim. A ruim é que esse endereço, ao qual já nos acostumamos e afeiçoamos durante os quatro anos de existência do blog, vai morrer. Acabou a era do blogspot. Apesar de toda a tristeza que abandonar essa página branca me traz, vou sem maiores delongas para evitar minha própria comoção. Estamos migrando para o diretório de blogs do site/portal/comunidade/sei-lá-mais-o-que O Pensador Selvagem, um projeto superbacaninha que vocês podem ver que bicho é com os próprios olhos. Lá estaremos em ótima companhia, vizinhos de boa parte da vida inteligente da blogosfera brasileira. Coisa fina, é ou não é? Então é isso aí macacada! A partir de agora, acersse o sindicato pelo http://sindicato.opensadorselvagem.org/ . Aqueles que tem links em seus sites e blogs para esse endereço aqui, por favor, tenham a bondade de atualizar seus links para voltarmos a usufruir das visitas que vocês gentilmenta nos rendem. Aqueles que ainda não tem um link do sindicato em seu site, blog ou coisa do gênero, bem, tá esperando o que? Aproveita o endereço novo e, como diria o outro, "linka nóis!".

Fica aqui meu agradecimento a todos que visitaram essa humilde publicação de literatura virtual barata durante esses quatro anos. Se não fosse a visita e os comentários de todos vocês, certamente não teríamos ganhado porra nenhuma com isso!

Grande abraço a todos, em meu nome e em nome de todos os outros escritores baratos desse blog (sempre sem perguntar nada antes a nenhum deles).
.
PS: Não perca mais seu tempo, visite agora o novo sindicato clicando aqui!

quarta-feira, setembro 10, 2008

Colibri

Mesmo se os teus olhos
Não me pertencem mais
Não vejo por aí alguma outra que me faz

Sentir como eu sentia
Quando era calmaria
E enquanto estiver são
De não em não eu corro atrás

Sendo um reles colibri
Que paira sobre os galhos
E vê que está feliz, mas não suporta mais um talho

No peito dos desesperados
No fundo do peito dos desafinados
O pobre colibri não vai parar de cantar

Só que eu sei, que nunca existiu
Amor igual a esse que sinto, viu?
E é por isso que enquanto
Eu não encontrar outro canto
Você vai ter que ouvir meu bico em pranto

segunda-feira, agosto 18, 2008

Versos em linhas brancas # 13 (improviso preenchitório)

Leevia,

eu li as linhas brancas nos teus olhos
e dentro delas o teu ódio
por coisa nenhuma
por tua alma e a minha...

Mesmo assim
coisa alguma me fascina
nos teus olhos de cocaína...

O espelho tem outro sentido
coberto de neve e castigo

teu corpo longe, longe...
teu sexo frágil, frágil
teu gozo frígido, frígido...
teu riso forte.

(tudo tão frio escondido
longe do teu interior tímido
e fora nenhuma dor
é corpo frio acumulado:

nenhuma alma te socorre
faz o socorro em porres
em teu sorriso de coringa
e na fronte retesada

transforma tudo
em tuas passadas pesadas...

o tchau sem voz
a voz sem medo
mas alguma coisa me fascina, Lívia
nos teus vítreos olhos
olhos de cocaína...

sexta-feira, agosto 08, 2008

Ódio, Rancor e Outras Mágoas - 4 Cecília

Não importa onde estava, com quem estava ou quando estava, nunca estava bem. Aparentava estar bem, extremamente bem. Mas a verdade é que nunca estava verdadeiramente bem, nunca esteve. Por trás dos olhos mansos como o mar, algo meio "acabei de acordar", da cara pacífica e da fala bem lerda, tinha uma mente que pensava alucinadamente, o tempo inteiro, falava, falava e falava, de certa forma contra a vontade dela. Queria calá-la, queria calar-se, mas ela estava sempre atenta, sempre pensando. Sempre algo a incomodava. Tinha medo das coisas, medo das pessoas, medo de si mesma. Na sua cabeça sempre uma voz apontando as pequenas e as grandes conspirações do mundo. Sentia-se errada. Sempre errada. Se estava entre pessoas, sentia-se estranha, angustiada, sozinha. Achava-se feia e desagradável, embora fosse bela e deveras simpática. Se estava sozinha, também. Não sabia se portar entre pessoas e, sendo ela uma pessoa, não sabia como se portar consigo. Não conseguia. Se sua mente não lhe azucrinava com nada muito filosófico, tinha algum desconforto corporal, seja uma dor, uma pontada, uma coceira, uma etiqueta cutucando, a calcinha desarrumada, meia entrando no tênis, cabelo fazendo cócegas na orelha, uma gastrite, estomatite, azia, prisão de ventre, gases, resfriado, sinusite, rinite alérgica, dores musculares, cefaléia, cólica. Nunca estava tudo bom e isso a angustiava. Sempre algo estava fora do lugar. Ela mesma estava fora do lugar. Não sabia o que fazer com as mãos, não sabia o que fazer com os olhos, não sabia o que fazer com os lábios. Ainda assim tentava. Falava, e os outros nem percebiam que se desesperava, mas tudo bem, tão pouco ela percebia que os outros não percebiam que se desesperava. Vivia em um mundo à parte. Vivia no mundo. À parte.

sexta-feira, julho 25, 2008

Separação de bens

Tinha uma pedra no meio do caminho. Ela, que não é mulher de deixar lhe atravancarem a vida, chutou longe a pedra. Do lado de lá da margem, a pedra gritou:
-Mas como? Rápido assim?
-Sim, rápido assim. Ou é necessária uma cerimônia de adeus pra que se chute uma pedra?
Um passo à frente e a pedra grita:
-Tu ainda me amas. Não me venhas dizer que tudo se dissipa num segundo. E...e tudo o que aconteceu?
Um olhar. Um passo à frente.
-Esse ódio que tu por mim alimentas não é ódio, mas amor. Tu me ligas no meio da tarde para me xingar porque ainda me amas, mas já não podes ligar pra dizê-lo. Tu ainda me amas!
Um suspiro de impaciência. Um passo à frente.
-Minha presença realmente te incomoda? E por que te incomoda? Tens medo de voltar pros meus braços: eis todo o teu incômodo. Te molesta eu te trazer vinho e queijo? Te molesta porque queres compartilhá-los comigo: o vinho, o queijo e o torpor de depois, para adormeceres sobre o meu peito! Como pensas que pode seguir assim, ferida e caminhando?
Um nó na garganta. Um passo à frente.
-Que te dizem minhas outras mulheres? Quem pensam que são para de qualquer modo te atingirem, te tirarem o humor do dia? Logo a ti, que eu amei mais do que a qualquer outro ente, qualquer coisa dotada de existência em todo o mundo? Vou eu mesmo resolver isso, acabar com estes disparates.
Uma gargalhada profunda, demorada, confusa. Não mais um passo.
-Sim, rápido assim. Rápido, o contrário de lento, que foi como passaram as noites (amaldiçoadamente seguidas de manhãs e tardes que passavam com a mesma velocidade) em que te esperei. Rápido que nem um raio, um instante de loucura no qual se mata a própria mãe. Rápido como as nossas fodas; como a sua mente é rápida em inventar e sustentar mentiras. Rápido como você esquece as coisas que diz e faz. Rápido assim: um estalar de dedos. As feridas são minhas e a mim e aos meus cabe curá-las. A você já coube a confecção delas, uma por uma, como um ourives, meticulosamente cravando-as em mim. Eu sigo carregando todas, porque são minhas e não suas. Carrego também tudo o que me pertence, tudo o que você ainda não me tirou. Sua presença me incomoda porque me faz lembrar que fui de fato (quanta ingenuidade!!!) sua, e isso me envergonha, me fere o orgulho de mulher ter estado tanto tempo dentro dos teus olhos. E se você traz vinho e queijo, eu como e bebo. Mas pode estar certo de que o torpor vai ser sentido em braços distintos. Quanto a ele, que também é meu, não se preocupe: está sendo muito bem gasto. Todos os “não” ditos em sua consideração estão sendo revertidos em generosos “sim”. Não falta com quem queimar o vinho no meu sangue. Você, agora, é a mais remota das opções. E quanto as minhas querelas, elas tampouco te pertencem. Eu me debato com quem quiser, porque se você diz me conhecer deve saber que eu sou conflito em forma pura. Sou feita de embate. E por último, o seu amor você pode levar. Não faço questão porque isso não é meu.
Segue mancando, a perna esquerda e metade do peito em carne morta.

quinta-feira, julho 24, 2008

Estes dias...

Por respeito a você,
não abro os primeiros
botões da minha blusa;
não bagunço teu carro,
teu flat, teu flashback
- passado é passado, não
vamos comparar; as bandas,
o bingo, o bando de amigos
que você traz para almoçar
não me importo, não ligo,
é sério, eu posso suportar!
Só não mexe comigo, não mexe
"naqueles dias", cê sabe, nem respira!
Que eu pego tudo isso e listo,
listo, listo... Meu compromisso
é comigo mesma.
As mulheres que me fizeram,
construída de saliva, barro e sangue,
carregavam nos punhos ferro.
Aroeira nas costas.
Traziam o olhar rente ao horizonte:
baixos pela dor,
altos pela lição.
Os lábios cerrados, os dentes ocultos.
Peito duro, mas poroso.
Traziam o mundo nos ombros.
E sob as sandálias, as paixões.
O matriarcado que me gerou
Me deu de presente todos os mundos que engoliram
e algumas cicatrizes nos pés.

quarta-feira, julho 23, 2008

Ódio, Rancor e Outras Mágoas - 3 Desalmado

- Corre, maluco, corre!
- Que guéla , De Menor, puta que o pariu!
- Vai Chulé, caralho! Vaza daqui, a casa caiu!

A casa caiu. O cagueta era próximo, com certeza. Saiu do “túnel” - uma espécie de cova comprida e apertada, com mais ou menos 2 metros de profundidade, que começa a uns 20 metros da boca e segue o córrego até o outro lado da favela - e logo deu de cara com os gambés.

- Aí Chulé! Que beleza… Foi sorteado, cara! Vai tirar umas férias…

De Hortolândia, foi para Araraquara, de onde só poderia sair depois de três anos e meio.

- É, mina. Peguei um doze. Logo agora! Já tinha comprado a goma da coroa, só faltava a nossa…
- É. Só faltava a nossa…
- Aí mina, segura essa aí, logo, logo, eu to vazando dessa porra. Vamo fazê essa pelo pivete.

Não segurou. Também, nunca gostou muito do pivete. Resolveu doar a criança. Em poucos meses, Chulé recebeu o aviso da audiência.

- Porra, seu Juiz, essa mina tá loca!
- Porra? Você disse porra?
- Perdão, meritrísimo.
- É Meritíssimo!
- Isso mesmo… perdão… é que, seu juiz… essa mina quer dá meu pivete pra outras pessoa que a gente nem conhece cuidar? Qualé que é a dela? Aí, te digo de coração mano…
- Perdão?
- Digo… meri… tri..tí…ssimo… bota o pivete na mão da minha mãe aí, que ela é de responsa. Quando eu sair daqui, só vô andar do lado certo que é pra nunca mais faltar com o pivete.
- É mesmo?

Começou a chorar.

- Eu sempre achei que bandido não chora, seu juiz, e olha eu aqui! Se os caras do movimento me vê agora eu tomo um tiro nas idéia pra larga de ser bicha! Não tira o pivete de mim não, seu juiz… se ela não quer mais ele, deixa ele com nóis. Por favor!

O juiz não teve coragem de tirar o pivete de Chulé e o menino foi morar com Dona Zuleide. Chulé trabalhava o máximo que era permitido para poder reduzir sua pena, não parava de pensar na hora de ver o menino. Luis. Luis Eduardo Silveira. Lucho, que nem aquele argentino louco que tinha a conexão do melhor bagulho. Seu melhor amigo, por cinco meses. Não sabia uma palavra de castelhano e tão pouco o argentino era eficiente no português. Pra piorar, cada um carregava a fala com toneladas de gírias e corruptelas típicas de seus respectivos subúrbios natais. Ainda assim, se entendiam com perfeição. Queimaram muitos baseados, tomaram chá de cogumelo, muita farinha, mulher, docinho, cerveja e idéias na mesa do bar. Argentino estranho, trocava uma idéia diferente. Vez ou outra recitava até poesia.

- “Acciones negras descubiertas de repente como hielos, desordem vasto, oceánico, para mi que entro cantando como una espada entre indefesos”.

Chulé retrucava:

- Que papo de boneca… qualé que é, vai passar batom agora também?

Foram irmãos.

- Mira, como estás colgado!
- Que porra! Cagado é o cacete, Lucho, eu to é muito loco!
- Sí, loco, muy loco!

Lucho morreu. Luis, Luisinho, argentino loco!, Lucho. Três tiros nas costas. Jogava sinuca feliz no bar do Salada. Carlinha, sua namorada, viu tudo e chorou compulsivamente e sujou sua blusinha branca com sangue e pólvora e vísceras e arrependimentos. Nunca mais Chulé encontrou conexão de um bagulho tão bom (as vendas até caíram). Nunca mais chá de cogumelo no sítio,

- Lucho, Lucho, como é que fala mesmo, é “colgado”? Estoy colgado! Puerra, estoy muy colgado, amigo! Muy colgado!

nunca mais baseado, cerveja, mulher, farinha, docinho, idéias estranhas, nunca mais. Lucho Morreu. Assassinado. Lucho morreu. Atropelado. Saiu com a dona Zuleide pra comprar abobrinha e lingüiça, passou uma Ranger preta por cima dos dois. A dona Cleide, dona da venda do outro lado da rua, andou dizendo por aí que foi o Felipinho, um agroboy da região, mas preferiu não falar nada quando o Inspetor Gilberto lhe interrogou.

Chulé quase quebrou todos os dentes do carcereiro.

- Como assim meu pivete morreu? Minha coroa também? Cê ta me tirando? É mentira, caralho, é mentira!

Chegou o dia. Acabou a pena. Começou a pena.

- “Todo vale la pena se la alma no es pequeña”.
- Cala a boca, Lucho, ce já subiu mano! Que papo de boneca, porra! Você morreu. Lucho morreu, Lucho morreu! Todos! Sem coroa, sem pivete, sem truta forte. Será que vale a pena, Lucho? Vale porra nenhuma! Minha alma já foi vendida, truta. Já era.

terça-feira, julho 08, 2008

Asas Cortadas

sou um pássaro de asas
cortadas

pássaro cinza, auto-engaiolado

deixei minha cor no passado
fiquei apenas com as penas

tenho cortado o
cor
iiiii/
iiiiiiação

iiiiiicarrego uma
iiiial
iiiiii/
iiiiiiima
iiiiiiiiiiiiiicortada

cansada de ser cansada

sou pássaro sozinho iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiino canto
de canto cortante
sou meu recanto ambulante
decanto, recortado
de mim separado
i N c o N s T a N T e

de humilhação em humilhação
enchi o papo,

fiquei pesado!

mas o tempo curou minhas asas
e agora soltei os sapos


estou
LEVE!
livre para
voar.

sábado, junho 28, 2008

O Pecado da Pecuária

o pecado da pecuária não é pequeno:
é pesado e peida metano
polui o mundo através do ânus
convenhamos: são grandes bundas soltando veneno!

o pecado da pecuária é cinzento:
a rés em grande sofrimento
demanda maior desmatamento!

e a pobre mimosa que come minha soja
do que alguns miseráveis é bem mais nutrida
é gorgucha como os gorduchos da bancada ruralista

e todos sabem que latifundiário
tem sempre no fundo do armário
uma espingarda que nunca erra
que é pra enterrar sem-terra.

só espero que artista
não caia na lista

cruz credo!

acabar que nem freira
em terra estrangeira.

sexta-feira, junho 27, 2008

Palavras Tristes

nos poemas que te escrevi
as palavras se entristecem:
sentem estar perdendo o sentido.

quinta-feira, junho 26, 2008

Curto # 19 (poemeto existencialista)

a caneta não funcionou
no momento em que surgiu:
jaz aqui, um poema que inexistiu...

Curto # 3 (Despétalas)

Tatuagem de flor
não faz da pele um jardim:
corpo reto
membro ereto
pra você gostar de mim...

terça-feira, junho 24, 2008

queridos camaradas, tão distantes
nesse poema de inverno frio
que corre apertado através do fio
mando notícias do meu coração vazio

nessa poesia sentimentalóide
mando notícias de tablóide,
desse coração despedaçado.

é que ando tão a flor da pele
que tenho ganas de ódio
contra os sortudos que
encontraram as palavras certas
antes de mim.

é que ando tão desesperado
que nesse mês gelado
está tão ruim o baseado
só me resta ficar embriagado
do conhaque mais barato
da venda do tio.

é que ando tão sozinho,
tão sozinho!
que me perdi até de mim mesmo.
voluntariamente.

queridos camaradas, tão distantes!
não há instante em que eu não pense
em abrir uma cerveja
e colocar alguns copos a mais na mesa
e encher o cinzeiro com nossas cinzas e nossas angústias!

queridos camaradas! ando tão distante
é que sinto a falta de alguém pensante
cansei de ser pedante solitário
cansei de ser o único otário
preciso de alguém com quem concordar.

queridos amigos viajantes!
cansei de suas visitas
tão curtas que deixam
saudades aflitas
quando é que vamos
habitar o
mesmo lugar?

quinta-feira, junho 19, 2008

Hai Kai do Macho Arrependido

As mulheres da minha vida

Peço desculpas

Pela dominação indevida

segunda-feira, junho 16, 2008

Ódio, Rancor e Outras Mágoas - 2 Segunda

Barulho de máquinas, retirada, entrega para fazer, cigarro, café, orçamento, pedido, telefone, "Cadê meu material?", "O disco de retenção não suportou a pressão, vamo ter que trocar", "Prezado cliente, a Telefônica não constatou o pagamento da conta de telefone referente ao mês de...", estudo, hoje tem prova, capitalismo, revolução e contra-revolução, burguesia entreguista, jazz nas caixinhas do computador, telefone, "Poderia me dar o sinal de fax?", Eminem no rádio que toca perto das máquinas, telefone, mensagem no MSN, fome, cansaço, cigarro, cabeça doendo e rodando, telefone, mais cafezinho, cigarro, telefone, mais um cigarro, tosse, "separa o pedido da UVC", "ta faltando um cotovelo", banheiro, leitura de uma coluna pequena no jornal, telefone, cigarro, café, almoço, "Esse mato aqui de quem que é?", café, telefone, "Chamada a cobrar. Para aceita-la...", cigarrinho, computador, orçamento, e-mail, pedido, redige duplicata, redige promissória, "E aí, vai sobrar algum pra pagar o aluguel?", "Hoje não, quem sabe amanhã", estudo, hoje tem prova, transição pseudodemocrática, autocracia institucional, a farsa do mudancismo, "Você não vai fazer aquela entrega não?", carrega caixa, carro, trânsito, fila na recepção da empresa, volta, trânsito, cigarro, cafezinho, telefone, "Se o Sr. não tem condições de pagar o aluguel, então é melhor desocupar o imóvel", "Faz um favor então, querida: me processa", barulho de máquina, estudo, hoje tem prova, elites buscando uma nova fase de acumulação capitalista, submissão ao capital estrangeiro, a verdadeira democracia só é possível pelas mãos do proletariado, cigarro, café, "Dá um pulinho no banco, por favor", carro, trânsito, fila no banco, "Qual era mesmo a senha?", "É o senhor mesmo que assina pela empresa? Posso ver o seu RG?", "Claro que pode... (Vadia!)", outro banco, fila grande, estuda na fila, hoje tem prova, medo e delírio na extrema direita, esperança e delírio na extrema esquerda, Nova República, "A política dos notáveis, dos políticos orgânicos do conservantismo moderado, que se acreditam democráticos e humanístico porque não recorrem a chibata...", será que não?, "(...) não pretendem retroceder ao escravismo...", será que não?, "(...) e se cobrem de um manto de lantejoulas iluministas, seduzindo as massas com as palavras e as minorias com as ações", "Próximo!", "Cheque administrativo nesse nome, por favor", "Pronto, Sr.. Próximo!", volta, carro, trânsito, telefone, cigarro, café, estudo, hoje tem prova, "No conjunto, as elites políticas fizeram o mínimo possível para erradicar a ordem ilegal implantada pela ditadura", vista embaçada, cabeça confusa, volta o parágrafo, volta a página, mais um café, mais um cigarro, volta a página, "Chegou aquele cotovelo", banheiro, telefone, limpa correndo, "Amor, você pode me trazer dois abacates e alguns pepinos?", mensagem no msn, "E aí cara, blz? Estudo p prova?", estudo, porra, hoje tem prova! A democracia blá blá blá, "Acabou meu cigarro, vou lá embaixo comprar mais", caminhada, sol, céu azul... Ah!, um escadão qualquer num buraco qualquer de Diadema recortando uma favela qualquer... Crianças correndo, cachorro revirando o lixo, duas tias fofocando... Metade de um baseado,"Não tinha cigarro lá embaixo, tive de ir até a padaria", um bloco de notas surrado... Sete minutos de descanso pra não acabar fazendo alguma bobagem.

quarta-feira, junho 11, 2008

Ódio, Rancor e Outras Mágoas - 1 Quanto Dó Juliana Dá

PS: Olá pessoal, vou republicar alguns contos, que pretendo publicar algum dia qualquer reunidos sob o nome acima, com algumas pequenas alterações e revisões, que mas é possível que tenha deixado passar algo. Sabe como é. De qualquer maneira, aí vaí o conto. Valeu!

Quanto dó Juliana dá. Quanta pena a pobre balzaca causa. Não é a pele precocemente enrugada, marcada por anos e anos de copos e cinzeiros transbordantes. Não é a barriga meio mole, tornada flácida após a extração do filho tardio. Não é a falta de pigmentação no colo que ela ostenta desavergonhada em ousados decotes que expõem seus fartos seios branquelos. Não é a perna peluda nem a cara lavada de mulher descompromissada com esse tipo de vaidade. Nada disso incomoda, irrita ou causa pena. Na verdade, é linda. Os longos cabelos negros (nº1), os traços delicados, os olhos verdes, os lábios finos e o corpo lânguido lhe conferem uma beleza que não carece de adornos.
Também não é sua pobreza a causa de tanta comiseração. Não é lá muito endinheirada, é verdade, mas o salário de securitária sempre sustentou sem maiores problemas. Não da pra usar Lancôme para hidratar as mãos e a ração da bicharada certamente não pode ser DogChow. Mas comida, cerveja e DVD pirata nunca faltam. Pode até faltar comida e DVD pirata, mas cerveja nunca falta, o que não vem ao caso, também não é o alcoolismo que tanto causa dó.
O problema da moçoila é simples: o coração. Bregamente falando. Juliana, pobre coitada, não sabe amar. É casada, claro, tem filho, irmãos, cachorros, gatos, cuida da mãe velha e doente. Cuida por amor. Atente ao que eu digo: Juliana não é incapaz de sentir amor. Aliás, o sente em larga escala. Mas o problema é que ela não sabe amar. Tem medo. Pavor. Pânico! Juliana, quando ama, odeia. Ofende, chateia, provoca. Quando precisa dividir, desespera-se (Será egoísmo ou medo?). Esconde o que é seu e usufrui do alheio. Desdenha do outro, despreza, insulta, ironiza, sempre se pondo acima. Sempre descendo mais baixo.
Pobre Juliana, assim foi educada. Foi ensinada, com muito carinho e muito amor, a odiar. Posta desde cedo acima do resto da humanidade, sempre foi considerada a menina mais bonita da cidade (a mãe quase morreu de alegria ao ver que, graças a deus!, nasceu branca), cheirosa, limpinha, de classe, sangue azul ("Você não é como essa gentalha que mora aqui nesse fim de mundo, querida! Você é linda! Você é nobre! Você é clara..."). Juliana é tão grande, tão magnífica, tão suprema (!) que se sente traída por si mesma quando se percebe desenvolvendo carinho por algum ser muito inferior. E absolutamente todos os seres são muito inferiores.
Juliana não gosta de pobre, embora também seja um pouco. Não gosta de preto, embora também seja um pouco. Juliana não gosta de nada, nada, nada que seja um pouco diferente dela mesma, modelo de perfeição a ser seguido. E o pior é que a trintona enxuta é um indivíduo bem específico.
Coitadinha. Fosse menos gostosa, talvez acabasse sozinha. Talvez esteja sozinha agora. O marido gordo e bêbado largado no sofá degustando um sandubão de mortadela. O filhote, nariz escorrendo, puxando a cortina e derrubando os bibelôs da estante. A sogra ("Velha maldita, tomara que morra logo dessa porra desse câncer!") gritando asneiras enquanto cozinha uma sopa pro "menininho" e ela lá: complemente sozinha, reciclando mágoas antigas, misturando-as as novas para formar mágoas maiores e mais resistentes. Odiando conviver com aqueles que odeia, detestando amar aqueles que ama.

***

Quanto dó, Juliana. Foste a pessoa mais detestável que eu mais amei em toda minha vida.

domingo, junho 01, 2008

Curto # 71 (versinho para o apaixonado no banco do jardim)

Amor: ilusão dos instintos,
Dos futuros animais extintos,
Pela ilusão do amor...

quarta-feira, maio 28, 2008

O caos que me espera a cada esquina
E o barulho da sirene
É a mais pura anfetamina

É muita ambulância e viatura !
Minha coluna está ficando dura!

Porra! Esse barulho de buzina
Sinfonia tão solene
Minha alma contamina

Estou ficando cheio de bravura!
Lutando a cada mísera abertura!

Fodeu! Eu já estou tão atrasado
Essa velha na minha frente
O sinal sempre fechado

Eu já fumei um maço de cigarros!
Já tive os pensamentos mais bizarros!

Ainda bem, não tinha um machado
Em momento delinqüente
Eu teria condenado

O Corsa preto da velha do lado!
E a cabeça do seu cachorro caro!

Acho que estou enlouquecendo.

Meu caro, por favor, me deixe passar!
Meu caro, por favor, eu vou me matar!

Meu carro, meu caro! Meu carro caro!
Meu carro, meu carro, meu carro!

***

Espaireço, emudeço, enlouqueço

>>>>>>>>>>>>Encaro
>>>>>>>>>>>>>>Meu carro
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>Caro
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>M
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>eu Carro!

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>Encarro.

terça-feira, maio 27, 2008

Curto # 26 (juliana de maio)

Nada
de novo se acaba
o céu sereno
e a lua alta
silenciando mágoas...

Complexo de Torre de Pisa

Eu estou de saco cheio de tudo. Quando não é uma coisa é outra. Ou dinheiro, ou satisfação profissional, ou prazer, ou amor. Esses devem ser os pilares da minha vida. E sempre existe um que vai muito bem, obrigado. Às vezes dois, quiçá três. Porque diabos não consigo ficar ereto? neutralizar as estruturas talvez fosse uma saída, mas aí entraria num estado de autismo profundo, pior do que este que já vivo. Estou farto da pendência, em todos os sentidos da palavra. Eu sempre devo E pendo. E isso me destrói de uma forma que é inconcebível.
Existe algo errado em querer viver as coisas de forma simples? Em almejar uma vida perfeita? SIM! Ela não é perfeita e nem simples. Óbvio. Porque o racional insiste em brigar com o emocional? Muita gente daria tudo para ter a vida de muita gente, doce ilusão. Eu só quero não ter coração. E nem cérebro.

Mulheres de hoje

Regiane é dessas mulheres de hoje. Dessas que gostam de dizer aos quatro ventos que sim, é possível viver assim, sozinha. Vai ao mercado, compra lasanha (de porção individual) e sente orgulho ao programar os 15 minutos e pensar “ninguém precisa de ninguém nessa vida, veja como eu me viro”. No trabalho é aquele trator, temida e admirada ao mesmo tempo, sobretudo por aqueles babacas engravatados, que entre um café e outro falam de sua postura imponente. Ah, como os homens são tolos e fracos. Toda sexta-feira, expediente acabado, pega sua bolsa roxa, celular de última, e vai encontrar as amigas – todas assim, que nem ela. Quatro, cinco, seis na mesma mesa, de sorriso no rosto, felicidade expressa nas palminhas que batem a cada piada. Todas bem-sucedidas, contando histórias que remetem, em sua maioria, aos caras que não sabem de nada, que mandam mal na cama, que causam asco com seu machismo, com sua escrotice, com seu papo morno sobre vinhos, sobre mercado de ações, sobre política, sobre futebol. Três drinques depois, e alguns flertes com o grisalho da mesa ao lado, torna a pegar a bolsa roxa, sai cambaleando, mas ainda batendo as palminhas, e aperta o controle de alarme do seu Crossfox prata. Em casa, deita. E rola na cama. Direita, esquerda, direita, esquerda. Puxa o lençol e, por fim, joga-o longe, para fora da cama. Pensa que talvez esteja lhe faltando alguma coisa.

terça-feira, maio 13, 2008

De uma catraca a outra #12 - Eles não sabem andar de metrô! [parte 4]

Noite, volta pra casa, sexta-feira, todos resolveram cabular o dia no colégio. Um grupo combinou de se encontrar no cinema. Wilson resolvera voltar cedo pra casa, adiantar os trabalhos da escola pra ter o fim de semana inteiramente livre.
Na Estação República, 18h25 - se der sorte você vai sentado em um dos trens que param vazios. O alvoroço na volta é maior do que na ida ao trabalho, mais grupos de amigos, mais casais, mais piadas coletivas:
- Vamo entrando minha gente, tem espaço, ainda não tão em cima do meu pé.
- Sem peidar hein Marcão.
- Então não empurra minha barriga.

Portas abertas. Wilson conseguiu se sentar no banco e ficar de lado pra janela. Quando a multidão se ajeitou começou a ouvir uma história:
- Pois é, eu tenho um amigo que o tio dele era maquinista do metrô.
- Sério?
- Verdade, ele contou umas histórias sinistras.
- Tipo o quê?
- Ah, cara se jogando na linha, efeito fantasma no trilho em dia de chuva.
- Cara se jogando? Isso é verdade? Ninguém nunca viu pessoa se jogando no trilho.
- Esse tio do meu camarada viu. Ele disse que qdo viu o primeio foi foda, passou um tempo na terapia, aí voltou viu um 2o. se jogando, pediu demissão no mesmo dia.
- Caralho! Foda. Profissão de risco.
- É insalubre mané!
- Mesma coisa. Falando nisso, outro dia tinha um piloto de metrô acelerado, ou acelerado ou cuzão.
- Buzinando pra galera?
- Nem, tipo: metrô lotado, aí tocava a campainha sem fechar a porta, só pra a galera começar a correr.
- Hehehe! deve ser engraçado fazer isso.
- Aí, chegou na Sé, falo ae Jão.
- Falou! Até amanhã!

Na Sé a gritaria e empurra semelhante ao da República. Campainha, portas fechadas, trem partindo:
- Oi! - perguntou uma menina
- ...
- Oi!?
- Oi! Nossa, você? - respondeu Wilson.
- Cabulando aula também é? - respondeu a menina entregando sua mochila.
- Pois é.
- Eu não tô cabulando não, o professor avisou que ia faltar. Hehehe!
- Ah tá, mais fácil. Mais certo né? - emendeu Wilson.
- É. Ei, eu ainda não sei seu nome.
- Wilson.
- O meu é Julia.
Julia, pensou Wilson:
- Que nome bonito.
- Obrigada! Não conheço muitos Wilson.

Será que ela achou meu nome estranho? Wilson e Julia, melhor que Winston e Julia? - indagava Wilson. Julia era então o nome da prestativa garota sempre pronta pra carregar a bagagem de todos, Julia é a garota das mochilas. No banco em frente ao de Wilson, um rapaz cedera lugar pra uma senhora com criança no colo:
- Qual o nome dele? - perguntou Julia à mãe da criança.
- Denis.
- Me empresta a mochila, pediu Julia a Wilson.

Ela arrancou uma folha de fichário e devolveu a mochila a Wilson. Julia começou a dobrar a folha, até entregar um barco de papel ao garoto, sorrisos em todos a volta, com o olhar de surpresa e alegria de Denis. Putz, essa menina é pra casar! - contemplou Wilson.

- Estação Vila Matilde.
- Eu desço aqui. Até amanhã! - despediu-se Julia com um beijo no rosto de Wilson.
- Tchau. - respondeu Wilson.
- Obrigada!
Eu que agradeço, murmurou Wilson um sorriso pra todos que pudessem vê-lo. Não é preciso saber andar de metrô, saber origami é mais importante!

segunda-feira, maio 12, 2008

cada pedaço do chão está
l e n t a m e n t e
ru
indo
sob meus pés

minha cabeça se des integra
se entrega

tudo está se d e s
constru
indo
e eu estou cá indo
e eu estou cá rindo
eu estou calminho
calminho, calminho, caminho

tudo está se d e s
constru
indo
a poesia
a rebeldia
a dicotomia
a nostalgia
a novalgina
a vagina
a vitamina

tudo está se d e s
constru
indo

eu estou des
constru
ido
cá ido, do ido, mo ido

como peças de lego
como vaca atolada
como boi ralado
um ped aço
pra cada
lado
des mem bra do

mas ainda assim
sentindo

querendo fazer
algum sentido

- sentido!

semtisentidorsemtisentisemsentidosentadosentisuasentençasem
sacoseguisemcertezasensatoaceiteisuasentençasemsacosentican
saçoconticegueiracomtisarcasmosemtisolidãoemtisacieisemtisa
ciadocansadoconfusoacabeçasemparafusodifusosemfusodelado
animallibertadosósabeviverenjauladoepássaroengaioladosósabe

cantar

mas não sabe voar?

boneco de re-talhos
des-costurado
de costas
des costurado
de cócoras
des-costurado
de colo
des-costurado
de mente
inteira mente!

feto enfastiado fora do útero

faz frio faz fome faz falta

mas tanto faz.

sexta-feira, maio 09, 2008

Último

Eu estou em um bar antigo e as pessoas parecem violentas
de quando em quando enquanto eu converso com as pessoas alguns homens se juntam em uma roda e lutam as lutas acabam sempre em uma morte os homens que vencem as lutas rápidas com armas brancas atiram depois de vencedores cada um deles uma garrafa que se quebra contra uma espécie de coluna de concreto as pessoas conversam comigo e todas elas aparentam ser pacíficas mas quando as fito nos olhos explode dentro de mim o olhar violento de olhos vermelhos e brilhantes olhos de raiva eu não sei o que sinto pareço estar ali me divertindo mas como parecem meus olhos eu não sei o menino se aproxima e ele mesmo tem os olhos de raiva me impressiona estou agora conversando com alguns homens e eu digo alguma coisa simpática talvez e essa mesma coisa simpática torna-os aborrecidos comigo sinto algo incomodando meu pescoço e percebo que eu estou imobilizado meu corpo lentamente é movido para trás sem minha vontade e meus olhos enxergam o que incomodava meu pescoço eu exclamo Não! Não! Não! e tento afastar a faca do meu pescoço com as mãos mas meu polegar é cortado e eu sinto a faca correndo pelo meu pescoço dividindo a pele cindindo meu pescoço em dois talhos bem próximos enquanto o sangue brota atônito diante do novo caminho a percorrer e eu sinto o sangue se avolumando e aumentando o tamanho da fenda aberta no meu pescoço e não consigo me recordar do que eu sinto.

terça-feira, maio 06, 2008

De uma catraca a outra #11 - Eles não sabem andar de metrô! [parte 3]

A manhã dessa quarta-feira já não começou bem. Metrô lotado, com maiores paradas e paradas no meio do caminho, o maquinista anuncia um usuário na linha da estação Belém. Wilson sabe que podem ser vários causos pra essa mesma desculpa:
1) Assalto na referida estação
2) Acidente do tipo: usuário caiu no vão entre o trem e a plataforma
3) Usuário arrastado pelo trem
4) Usuário se jogou na linha

Apesar de nunca ter ouvido de alguém que presenciou a história do tipo 4, não duvidava da possibilidade, quanto aos outros já conhecia diversos episódios. Há um ano ouviu uma história de um aluno do colégio que foi arrastado pela mochila presa na porta do trem, logo depois de ter ajudado no desembarque de uma senhora, até viu esse aluno depois pelo colégio, com uma espécie de colete com metais externos.
Mais uma aceleração no trem. Alarme falso, parada na linha de novo. Esse tipo de situação o lembra de duas coisas: operação tartaruga e greve - ele sabe que sem metrô, é muito pior do que a situação em que se encontrava. Mas não entendia como ousavam fazer greve, aliás não entendia greve nenhuma. Certa vez foi numa palestra que o grêmio de sua escola estava realizando, algo sobre passe livre aos estudantes. Nessa palestra descobriu que essas televisionadas badernas são na verdade formas de demonstrar força, poder, barulho. Achou interessante o poder do povo, a voz do povo, mas logo percebeu que se tratava da mesma espécie dos políticos - exercício de poder, manipulação de muitos pra interesse de poucos, então continua a não acreditar em nada com mais de 5 pessoas - até mesmo quando seus pais tentam combinar algo com os outros tios há desavenças. Ouviu também algo chamado de 'luta histórica', o que conclui são conquistas não conquistadas mesmo depois de mutias greves, pronto, já não havia mais como acreditar.

Wilson, não só passara a não acreditar como se tornou contra - Greve é instrumento de diálogo obsoleto, chantagista e manipulador de massas! Esses fdp ganham mais do que eu pra ficar parando a cidade inteira, deveriam é se reunir e cobrar o patrão deles, o governo, todos os dias, e não em cronogramas sindicais, cobrar melhores condições pra nós, que dependemos do metrô, e não para encher os próprios bolsos. Cambada de cuzão. Nos auto-falantes:
- O metrô está com velocidade reduzida e maior tempo de parada devido a presença de usuário entre as estações Belém e Tatuapé. Tempo de normalização: 3 minutos.
Dezoito minutos depois Wilson chegava na Sé.

Na volta...
Dia cheio, mas na escola o encontro com os amigos ameniza o dia. Hoje porém ninguém o acompanhara na volta, um pessoal decidiu pegar ônibus, e Jonas, que sempre voltava com ele pegou carona com a Alison e com o Rodolfo. O que dava mais tempo pra pensar, ouvindo música, porém antes de colocar o fone no lado esquerdo:
- Oi, posso segurar sua mochila? =)
- Cl...Claro! - com aquela cara de espanto e riso ao mesmo tempo.
Não acreditava na sua sorte, era a garota de uma semana atrás, a garota das mochilas. Ela não se pôs a carregar apenas a sua mochila, no banco logo ao lado da porta uma garota com cadernos e pasta na mão:
- Quer que eu segure suas coisas?
- Não precisa, obrigada.
- Que música você tá ouvindo? - perguntou virando-se pra Wilson.
- Hmmm - se concentrou nos fones - Tic tac o tempo vai passando e a gente aqui sentado num banquinho conversando...
- Hihihi! hehe! eu conheço! mas é meio antiga.
- É clássica!

A menina dos cadernos distraída, e os cadernos a cutucar a garota das mochilas. A garota das mochilas deita sua cabeça nos cadernos, os cadernos pesam:
- ...pode levar eles pra mim. - pede um tanto sem reação a garota dos cadernos.
- Tá, tudo bem. - responde protamente a garota das mochilas.
Wilson a observar com um sorriso pouco disfarçado - Agora o dia pode acabar. Tic tac o tempo vai passando...

Entre a vitrine e o estoque - Memórias de uma vendedora de shopping

Capítulo 83 - O cara da bermuda vermelha

Eram 17h25 quando o cara da bermuda entrou. O dia estava uma bosta. Como em todo o sábado, a loja estava bombando e eu, atendendo mais de uma pessoa por vez.
Já tinha atendido, inclusive, umas seis pessoas e fechado só uma venda ridícula de R$ [valor baixo].

Uma das clientes ficou 40 minutos se decidindo entre duas calças, não levou nenhuma e ainda reclamou do atendimento. Estava só esperando o [vendedor chato] voltar do descanso dele pra tirar a minha meia hora quando o [cliente] me abordou.

Com um sorriso desanimado perguntei seu nome e o que estava procurando. Uma bermuda vermelha. "Qual o seu tamanho? Ok, você aguarda um minutinho que eu já trago? Vou só levar essa blusinha pra moça no provador."

A moça do provador, uma gordinha que insistia em provar peças menores que ela, ficou um tempão reclamando da modelagem da loja, que o "M" daqui é menor que o padrão e o caralho a quatro, e eu esqueci completamente do cara.

Ele ficou uns bons 15 minutos esperando a bermuda. Quando me despedi da chata (que pelo menos comprou uma blusa), foi que o percebi perto das camisetas. Ele olhou pra mim, morri de vergonha. "Desculpe, querido, to trazer sua bermuda já! Qual o tamanho mesmo?".

Pra minha surpresa - e sorte - ele estava calmo e não reclamou. "Agora, pelo menos, você tem que dar atenção só pra mim!". "Ótimo, amigo, tudo que eu não quero é atender mais uma cliente pentelha". Pensei, não falei. Só um sorrisinho bastou.

Em 10 minutos, ele escolheu uma bermuda e aceitou uma camiseta que ofereci e resolveu o assunto. Não reclamou de nada, não me pediu pra ver mais dez coisas, não se estressou com nada. Foi um sopro de tranquilidade num dia de merda. Pela primeira vez em cinco meses eu quis que não tivesse sido tão rápido.

sábado, maio 03, 2008

O reflexo na tua retina

video

(uma tentativa de metalinguagem)

terça-feira, abril 29, 2008

De uma catraca a outra #10 - Eles não sabem andar de metrô! [parte 2]

Mp3 player novo, Wilson completara 18, e ganhara de seus pais um mp3 player, poderia agora ouvir músicas durante sua jornada diária. Na playlist: punk rock e rap, cantavam o que Wilson tinha vontade de dizer a cada fdp que faz o mundo piorar.

É quinta-feira - falta só mais um dia! - ultimamente anda pensando muito o que é ter 18 anos: exército, trabalho, cadeia, vestibular, dirigir! - 18 anos, mais interessante que assustador, ainda bem! perto da escada rolante uma senhora com seus aproximados 70 anos arrasta uma mala, dessas com rodinhas. Wilson prontamente a ajuda carregando sua mala pela escada:

- Obrigada.
- De nada. Senhora o embarque preferencial é do outro lado.
- Ali?
- Isso.
- Tá bom, obrigada.

Como pessoas decidem viajar tendo que pegar o metrô nesse horário? No vagão devidamente lotado, música para meditar rumo a Sé, suavizar o contato físico obrigatório com pessoas que ele não sabe nem o nome - Nem com meus pais fico nesse contato todo. Pendurado na barra, segue de olhos fechados, em uma das piscadas, olha pro banco próximo á porta do outro lado. Uma garota com 2 mochilas e uma sacola em seu colo, quase que sumindo na pilha, no primeiro instante achou engraçado, no segundo seguinte notou que por trás das mochilas e da sacola havia um par de óculos, e atrás dos óculos uma garota de olhos castanhos, cabelo meio colorido - apenas algumas partes do cabelo estavam vermelhos, e piercing na orelha.
Wilson não dormiu mais, só disfarçou na primeira olhadela dela. Ele sorriu e fingiu ser por causa da música, mexendo um pouco as pernas e a cabeça, não que a música não se encaixasse: 'Ser punk eu quero ser, punk com você'[Gritando H.C.], mas preferiu ser discreto. No desembarque, na estação Sé a garota das mochilas devolveu as bagagens aos respectivos donos e desceu, Wilson a perdera de vista, distraído não percebeu que uma mulher parou de repente para lhe dar passagem na entrada da escada rolante, ela então interveio:
- Esse mundo de hoje, viu? Mulher tem que dar passagem pra esses cavalos.

Wilson percebeu mas não respondeu, apenas sorriu, ganhar alguns segundos, pra pensar em algo pra responder ao xingamento quase gratuito, nisso, um senhor abriu o verbo:
- Minha senhora, eu tenho muita certeza da educação que tive, mas a necessidade das pessoas andarem é maior. Se a senhora ficar no meio do caminho acabará empurrada.

Wilson não precisou dizer mais nada, tudo resolvido, mais uma lei da selva de pedra pra aqueles que não sabem andar de metrô: andar no fluxo apressado e insano das pessoas, pois se for mais lento é empurrado, e se for mais rápido acaba empurrando.
Pensativo achou que a mulher merecia uma resposta ordinária, mas percebeu que estaria entrando na loucura alheia, como ela, que com toda a sua educação queria evitar. E também já não importava mais, encontrara uma jóia reluzente no mar de confusão.

segunda-feira, abril 28, 2008

Sem título (simples)

Quero escrever um poema
para o nó dos teus dedos
desatar do teu cheiro
esse vestido outonal.
.
um poema para a curva do teu seio.
um poema para o teu meio
elegante, entre as pernas finas...
.
um poema menina,
para criar tua filha
e dar irmãs à pequena palavra
do nome que ela tem...
.
Um poema vai e vem
(para ler paralelo aos teus fios de cabelo...)
.
Um poema sem medo,
entre duas línguas...
.
Silencioso e despido,
um poema que míngua
junto com teu corpo,
.
depois do gozo final...

Entre a vitrine e o estoque - Memórias de uma vendedora de shopping

Capítulo 42 - Primeiro emprego

Chega uma hora em que a adolescência acaba e a gente começa a querer trabalhar.
Pra algumas pessoas é uma necessidade, pra ajudar em casa. Pra outras é aquela história de ter seu próprio dinheiro, não ter que ficar pedindo pros pais, dependendo de mesada. Eu tinha que pagar a faculdade.

Cada grupo social tem um padrão para o primeiro emprego. O pessoal mais pobre vai ser faxineiro, office boy, essas coisas. Tem gente que procura trabalho em escritório, atendimento em banco, aprendiz de qualquer coisa.
No meu círculo, as meninas iam trabalhar em loja de shopping.
Quando chegou a minha vez, foi pra lá que eu fui.

A verdade é que todo primeiro emprego é uma bosta, não importa a área. Além do trabalho em si ser sempre aquilo que ninguém mais quer fazer, Você ainda não sabe nada sobre nada e a empresa, que sabe disso, monta em cima.

A chefe inventa reunião, você vai. Inventa regra sem sentido, você segue. Diz que você não está se esforçando, você acredita. Faz de conta que seu cargo é disputado e importante pra te fazer se decidar e você fica lá, trabalhando com medo de ser mandado embora por qualquer coisa.

Mas a gente não sabe disso quando resolve trabalhar.

É por isso que eu fiz um currículo todo bonitinho, pus uma foto bonita e fui toda produzida entregar nas lojas. Mais de 50 lojas em 3 shopppings. Entrava toda sorridente, chamava o gerente entregava os papéis como se eu tivesse nascido para vender roupas.

Parecia uma ovelhinha retardada indo pro matadouro achando que, sei lá, tá indo pastar. E você só percebe o papel que fez quando vê outra pessoa fazendo o mesmo. Cada vez que entra uma embonecada toda sorrisos pedindo pelo gerente, eu tenho vontade de gritar "Corra enquanto pode!".

Mas fico quieta. Todo mundo tem que ter seu primeiro emprego de bosta. E o meu foi esse.

quinta-feira, abril 24, 2008

Um suspiro por Frederico Todeschini de Assunção

Engraçado. Sempre reclamei da baderna que você fazia às manhãs de sábado, quando eu queria dormir, e agora sinto medo da dor que o silêncio vai nos causar.

Não sei como será assistir TV sem você roubando meu espaço no sofá, sem te ver exibir sua namorada pela sala.

Sem seus banhos, passeios, manhas. Sem te colocar no colo e carinhar até que caia no sono.

Tenho medo do vazio que você deixou na casa e nos corações, e da tristeza que há de se instalar no seu lugar.

Saudades, Fred, meu cunhadinho de estimação.
Espero de verdade que exista um céu para cachorros e que você seja muito bem-vindo por lá.

quarta-feira, abril 23, 2008

Happy hour

Os dois riam aquele riso sem graça cheio de entrelinhas, que o álcool ajudava a acontecer.

"O que você acha de a gente acabar com essa conversinha e eu beijar essa sua pinta, que é o que nós dois queremos?", finalmente disse ele, referindo-se à discreta marca rosada na divisa entre lábio e pele.
Não dá pra dizer que ela nem teve tempo de pensar e já estava envolvida em um beijo íntimo. Ela teve os últimos 45 minutos pra pensar, e era só nisso que pensava mesmo.

Trabalhavam juntos há dois anos e, sinceramente, ela nunca advinharia que acabariam ali, no bar. Mas as coisas mudaram depois do último aniversário da empresa. Para ela, a culpa era daquele seu vestido perfeitamente equilibrado entre o fatal e o corporate, que deve ter inspirado no colega novos sentimentos em relação a ela - que deu pra perceber depois de 10 minutos de conversa fiada na festa. O sorriso dele, contagiante desde sempre, deixou de ser tão cordial e ficou mais carregado de intenções.

Ver nele esse novo interesse em si despertou nela qualquer coisa também.
De lá pra mesa do bar levou menos de um mês. Ela gastou muitas horas encanada com o chefe, a ética, o emprego e sabia que gastaria muitas mais. Mas agora, dane-se. Só importa esse beijo bom, com gosto de chope.

sexta-feira, abril 18, 2008

(Sem Título) cap 4 Juliana

A roda era grande, cerca de seis meninos e quatro meninas. Juliana sentia-se meio desconfortável, lembrou de uma vez que todo mundo brincou de "verdade ou desafio" na sua antiga rua, eram mais crianças, é verdade, mas deu merda, sempre dá merda. Ainda assim resolveu continuar lá, e a caneta continuava girando no centro da roda. A esfera tinteira indicava a vítima, a parte traseira da caneta, o inquisidor. Sabia que alguma hora chegaria a sua vez. Foi agraciada com o direito da pergunta por duas vezes, e, posta frente a frente com duas "verdades", fez perguntas inocentes e descompromissadas, sem nenhuma intenção de constranger o interlocutor. Enquanto sua vez de ser a vítima não chegava, ficava observando o comportamento das pessoas, no geral fazendo perguntas sexuais ou desafios mais constrangedores do que engraçados - ao menos pras vítimas - vendo quem seria o pior perguntador, quem seria o melhor... Torcia pelo Anselmo, menino doce e tímido por quem nutria um belo amor juvenil, mas achava que o rapaz nem reparava nela. Mas se fosse o Marquinhos ou o Cardume, puta merda, estaria fodida. Ainda mais agora que o delicioso galão de vinho Chapinha já estava abaixo da metade. Marquinhos era o menino bonito da roda. O espertinho, catador, garanhão, repetente, dois anos mais velho, já tinha barba e não era tão pouca! Vivia zoando os outros moleques, era daqueles que andava na frente da turma, carregando consigo meia-dúzia de moleques de baixa auto-estima, como o Cardume. Esse último, coitado, era meio lerdinho, ganhou o apelido na sala de aula ao confessar para a professora que não sabia o significado da palavra cardume. Apesar disso, era extremamente malicioso. O idiota, da última vez que teve a chance de perguntar "verdade ou desafio?", recebeu:

- Desafio.
- Vai ter que dar um beijo no Marquinho então.

A vítima era a Regininha, a mais gostosinha dentre as meninas, a precoce (as meninas maldosas diziam que era apenas meio gordinha), consciente da sua posição na pirâmide social ginasial, esperta, adiantada, até por isso um pouco arrogante. Apesar disso o Marquinhos nunca havia chegado nela. Ficou eufórica. Era sua vez! Olhou para Tânia, que mordia os lábios de inveja.

- Como assim? Não acho certo esse desafio. Não pode ter nada envolvendo outra pessoa.

Sempre é bom fazer um charme.

- Tudo bem, vamos perguntar pra ele. E aí Marquinhos, como é que é? É pegar ou largar.
- Por mim, tudo bem.

O coração de Regininha bateu mais forte, sua face corou visivelmente.

- Tá bom, vai. Mas eu ainda vou cair com a bunda dessa merda dessa caneta pro meu lado. Vamos logo com isso.

Fez cara de brava, bufou e foi em direção ao Marquinhos. Passou sua mão direita pelo pescoço do menino e o puxou para um beijo curto e intenso. Foi curto, realmente curto, mas fez o possível para dar o melhor beijo, se lembrou de todas as regrinhas da Capricho, mordiscou o lábio no final, deu uma puxada leve no cabelo em cima da nuca, passou o seu all-star por cima do all-star dele, será que acertou mesmo todas as regras?

Juliana observava tudo inquieta, tentando parecer tranqüila, fazendo piadinhas nervosas de vez em quando. Estava ansiosa, queria que aquilo acabasse logo. Internamente reprovou a atitude de sua amiga, como ela pôde fazer uma coisa dessas? Abrira um precedente terrível, agora se ela fosse sorteada não poderia escolher "desafio", não queria beijar ninguém naquela hora, estava triste, chateada, decepcionada com o imbecil do Suave, rapaz cinco anos mais velho que tirou sua virgindade há três semanas. Como ela foi burra, tudo tão clichê, ela não era uma menina esperta, com pais diferentes, que lia, via filmes, pensava, como não percebeu? Todo aquele papinho doce, aquela carinha de rapaz mais velho, barba, pelo no peito, voz grossa, já trabalhava até, tão maduro, tão inteligente, sentia-se privilegiada por ser escolhida por ele, sentia que estava à frente de sua idade. Agora se sentia jogada fora. Comeu e jogou fora. Ou melhor, comeu, comeu, comeu, comeu e jogou fora. Já não conseguia mais prestar atenção no jogo, pensava no que seus pais diriam se descobrissem, sim, eram diferentes, mas não sabia se eles seriam tão legais assim quanto a isso. Pensava que a essa hora, pelo que a Julinha contou, o Suave estaria tirando a virgindade da Cicinha, aquela gordinha da rua de baixo.

- Jú, sai dessa, esse moleque é o maior filho da puta! O Régis disse que ele é o maior cuzão, gosta de menina virgem, depois que ele transa com você algumas vezes, já era. Isso se não for uma vez só.
- Como vocês são, nem conhecem o menino! Ele é muito legal, você devia conversar com ele um dia. Além disso, ele me contou que só transou com três meninas até hoje, quatro comigo.
- E você acreditou?
- Claro, o que dizem é estória, todo mundo tem inveja dele.

Como ela foi burra! Agora estava ali, no meio daquela molecada que nem era tão amiga dela assim, bebendo aquele vinho horroroso, fumando um cigarro atrás do outro, ansiosa, meio puta da vida, cada vez mais confusa, cada vez mais triste, cada vez mais bêbada.

- Hummm... Vejam só pra quem a caneta apontou.finalmente! Fala Juliana, verdade ou desafio?

Quem perguntava, para sua alegria, era Regininha. Não eram as melhores amigas do mundo, mas até que se davam, já tinham conversado algumas vezes, dormiram juntas na casa da Marcinha, trocaram meia dúzia de confidências pueris. Não parecia oferecer nenhum perigo. Bem, por via das dúvidas...

- Verdade.

Verdade. Ah, maldita verdade! Será que ela existe mesmo em algum lugar? Em alguma cabeça, em alguma existência, em algum fenômeno, em si mesma? Como estava bêbada... Seria a verdade verde? Ou seria a verdade vinho? Queria mesmo falar a verdade? Iria mesmo falar a verdade? Que isso, devia deixar de preocupação, era só a Regininha...

- Verdade, hein? Hummm, vamos ver... Deixe-me pensar em algo bem legal... Juliana... err... Você por acaso... bem...já se.. masturbou alguma vez?

O que? Era isso mesmo que ela estava ouvindo? Como assim? Filha da puta, qual era a dessa menina? Qual o motivo dessa pergunta? Poderia mentir, pensou, mas teve medo. Sua inquiridora sabia a resposta. "Foi de propósito, com certeza. Se eu mentir, ela vai me denunciar. Vagabunda falsa do inferno".

- Qual é Regininha, que pergunta é essa?
- O jogo é assim - interveio Cardume - vai ter que responder.
- É, vai ter que responder.
- Não pode fugir.
- A regra é essa, vamo lá!

Juliana baixou os olhos, confusa. O que deveria fazer. A cabeça girando mais e mais, será que era uma piração, por que logo ela, por quê?

Os meninos ficaram agitadíssimos, ansiavam pela resposta nervosos, roendo as unhas, balançando os pés, pareciam a torcida esperando pelo pênalti que define o campeonato. Gritavam, faziam piadas, pressionavam, riam, cochichavam, gritavam mais. Tudo isso foi deixando Juliana cada vez mais confusa, todas aquelas pessoas que ela conhecera há pouco, todas aquelas idéias girando na sua cabeça, o vinho, o Suave, papai, mamâe, o Anselmo, as matérias da Capricho, os livros, a professora de religião, as meninas da rua, o diretor da escola, a voz mudando, os seios crescendo, o mamilo é assim mesmo?, que porra de estria é essa que apareceu na bunda?, a cólica, o sangue, o ginecologista, o macaco ginecológico, as revistas da gaveta do papai, o vibrador da gaveta da mamãe, aquele livro sobre feminismo para adolescentes, a Cristiane F., o Rimbaud, as bonecas na casa da Barbie, a brincadeira de corda no quintal, o filho da puta do Suave!, tudo girando, girando, girando, verdade, diziam, verdade, verdade, a verdade, verdade velha, viúva, vasta, verdade vulva, maldita verdade, não é desafio, é verdade, a verdade (!), qual era mesmo a pergunta?

- Como vocês são babacas. Quer saber: já me masturbei sim, cambada de moleque imbecil. Aposto que vocês passam pelos menos uma hora por dia trancados no banheiro de casa batendo punheta. Bando de idiota do caralho! Punheteiros de merda.
- Calma Jú! Relaxa, o jogo é assim mesmo, já respondeu, já foi - disse Camila, tentando consolar a amiga- Vamos rodar a caneta logo de uma vez.
- Roda a caneta aí, siririca! debochou Cardume.
- Cala a boca, idiota!
- Hum, tá nervosinha nega? Melhor bater uma siririquinha pra se acalmar!
- Pára com isso, Cardume!
- Qual que é? Menina idiota, não sabe brincar. Fica aí dando chilique. Se cair comigo, vou perguntar se foi com a mão ou com o chuveirinho.

Juliana andou calmamente, embora trançando as pernas, até ficar cara a cara com Cardume. Era bonita, Cardume percebeu aquela beleza prestes a emergir, sentiu-se um pouco envergonhado, olhou-a pela camiseta branca do colégio, até que já tinha uns peitinhos bonitos, porra (!), ela já tava até tocando uma, por que não poderia ser dele?

- Desculpa aí, Jú, eu tava só brincando. Eu exagerei, tudo bem, mas ta tranqüilo. Cê ta ligada que é todo mundo amigo aqui, não tem erro, foi só zoeira. O que eu faço pra você me perdoar?

Juliana quase explodiu de tanta raiva. Que papo era esse agora? Ele não tava querendo a verdade? Não era a verdade? Então daria a verdade aquele filho da puta dos infernos! Verdade vinho.

- Não quer saber mais não, idiota? Pois eu te digo: foi com o chuveirinho porque com a mão só lembra homem, que eu vou te falar, é tudo uma merda, como diria minha tia, só serve pra assinar o cheque.





Falou com tanta convicção, mas tanta convicção, que até ela mesma acreditou que já tinha transado com mais de um sujeito. Ditas as palavras de forma imponente, porém um pouco embargada, acertou um belo murro na cara de Cardume, virou as costas e saiu andando em direção a porta do apartamento. Cardume fez menção de reagir, xingou a menina de todos os nomes feios conhecidos e inventou alguns, mas todos os meninos, inclusive o Marquinhos, foram pra cima dele a fim de amansá-lo. Todos, menos o Anselmo, que seguiu Juliana até o hall do elevador.

- Ei Jú, deixa que eu te levo até a sua casa.

Juliana fez que sim com a cabeça. Esperaram o elevador em um silêncio cinza, doído. Desceram treze andares de cabeça baixa (mas o número do andar era 14), Juliana agitada, tremendo, com vontade de andar de um lado para o outro, Anselmo envergonhado pelos amigos. Saíram do prédio e seguiram pelas ruas cinzas de Santo Amaro. Era madrugada, certamente não a melhor hora para sair andando pelas imediações do Largo Treze, as ruas vazias agora só tinham seu silêncio cinza quebrado por eventuais brigas de garotos de rua, engraxates, vendedores de farol ou pedintes, todos de rostos cinza de poluição, de mendigos carregando bêbados e convictos seus carrinhos de papel, o cachorro fiel sempre ao lado, pelos freqüentadores também bêbados que saem dos puteiros fazendo escândalo, contando aos amigos suas peripécias com as não tão belas damas dos meretrícios do entorno, todos cinza, são todos cinza, quando debaixo dos holofotes baratos da periferia ficam cinza amarelado. Em meio aquela paisagem árida de tão cinza, aquele ar que até mesmo na madrugada era meio carregado da fumaça do dia, aqueles prédios feios, muitos decrépitos, a sujeira da rua, os portões cinza das lojas populares cerrados debaixo de suas fachadas (o pai da garota dizia que, 40 anos atrás, aquilo tudo era quase só mato, poderia ser verdade?), quando chegou a porta de sua casa, Juliana respirou fundo, olhou bem para Anselmo, e percebeu que, mesmo naquele lugar, mesmo debaixo daqueles holofotes amarelos, ele não era tão cinza, não era tão amarelo. Parecia até bem colorido. Soltou um riso meio frouxo para seu acompanhante.

- Não liga pra eles não, Jú. São uns idiotas, não sabem o que falam. Principalmente o Cardume, é o maior merdão, por isso que não pega ninguém!

Juliana soltou mais um riso frouxo por cima das lágrimas que tentava engolir. Mas o riso foi a armadilha e ela acabou caindo em um choro soluçante, convulsivo, incontrolável.

quarta-feira, abril 16, 2008

a vida de cão

Nem preciso sair de casa, entra
qualquer coisa horrível, salta
de repente, da tela para a sala
e assusta.
Não fosse o cão, nem precisaria
sair de casa. Noto a tristeza
do dia, que visita a minha janela
trazendo notícias: acidentes de trânsito,
(transito do quarto para a sala,
cozinha, banheiro)
furtos, seqüestros relâmpagos, tiros,
tiros... tiros!

Meu cachorro me leva para passear três vezes ao dia.

(Sem Título) cap 3 Denis, Jimenez e Rafael

Quando ergueu novamente a cabeça e a inclinou para trás, Denis sentiu o gosto amargo da farinha atingindo a língua pela parte mais funda, chegando a boca através do nariz, como quando espirramos mastigando comida e um pedaço de arroz sai voando de nossas ventas (mas nesse caso o caminho é boca-nariz, não ao contrário como no primeiro caso). A boca secou, sentiu aquela desagradável sensação de estar com um ovo cozido entalado no meio da garganta, a narina esquerda ardeu, já um pouco cansada, mas a cabeça quase voltou ao lugar como planejera antes de entrar na cabina do banheiro ao lado de Jimenez. Farinha de merda, seria preciso mais uns dois ou três tirinhos daquele para fazer passar os efeitos do excesso de vodca barata. E olha que ele nem era um grande cheirador. Comparado com o Jimenez, seu companheiro de banheiro em tantas noites frias, até que era café-com-leite. Mas o foda é que a farinha era uma bosta, ele avisou o Jimenez, ainda bem que o cara é o maior playboy, comprou logo um monte de papel. Tá certo que ele vai cheirar bem mais da metade sozinho, mas e daí? Quem é que nega cocaína de graça?

- Vamo aí Jimenez, estica logo duas taturanas pra gente terminar que pegar essa merda de fila de novo vai ser foda.
- Toma, estica aí. Só não vai mastigar o plástico que é a minha vez.

Denis estava batendo o pó quando ouviu alguém gritando de fora:

- Vamo aê com essa merda, bicharada! Não deu pra gozar ainda? Eu quero mijar, porra!

Se entreolharam e sorriram. Se fosse o Rafael, Denis pensou, sairia do banheiro imediatamente e daria uma cabeçada bem no meio das fuças do sujeito.

- A nota.

Jimenez passou a nota de dez reais das novas, dessas plastificadas, e Denis pegou sua parte. Devolveu a nota e se afastou do balcão (sempre se perguntavam se aquele balcão só servia mesmo para cheirar). Jimenez aspirou sua tira da droga, visivelmente maior que a do seu amigo, e os dois saíram do banheiro. Na porta dois rapazes, se contorcendo de tanta vontade de urinar, tentavam manter a cara feia, quando Jimenez se aproximou de um deles, abaixou os olhos e disse, com sua voz grossa, sua entonação ligeiramente efeminada, visivelmente irritado:

- Da próxima vez vai lá fora mijar no poste, bi.

Era um rapaz de topete e camisa pólo verde clara, não parecia o tipo de freqüentador do lugar, o que estaria fazendo ali? Olhou para Jimenez por algum tempo, não pareceu tão intimidado quanto seu parceiro, mas no final cedeu a frieza daquela cara andina de seu antogonista. Denis não se conteve e deu risada.

- Vâmo maluco, vâmo pra mesa que eu já to pronto pra mandar outra breja.

Dirigiram-se a mesa do lado de fora do bar lotado. Quinta-feira, arredores da Rua Augusta, o boteco arrecadava muito mais do que suas sujas paredes poderiam fazer supor a princípio. Ao chegarem, Rafael esperava distraído com duas cervejas novas na mesa, fumando um cigarro de filtro vermelho que já estava pelo fim.

- Demoraram hein?
- Muita fila.
- Sei. Vocês estavam cheirando aquela merda.
- Tem razão, replicou Jimenez, era uma merda mesmo. Nunca vi farinha tão ruim.
- Vocês são foda. Ainda vão se fuder com isso aí.
- Porra Rafa, pede um quente qualquer ai pra você e não enche o saco!
- Tá bom, tá bom... É sem preconceito cara, só to falando isso por que sou camara...
- Tá bom velho, já sabemos disso!

Denis ascendeu um cigarro. Jimenez o seguiu.

- Tá, depois vocês vão ficar que nem a Uma Thurman naquele filme, que cheirava até farinha de trigo se encontrasse no paletó de um mafioso.
- Aquilo era heroína, imbecil!
- Sorte dela, Jimenez! Podia ser até farinha de milho que ela ia cheirar.
- Sorte dela, muita sorte. A mina teve uma over.

Denis se exaltou e começou a discutir com Rafael, que ascendia um cigarro na hora, enquanto Jimenez olhava, bebia, fumava e se divertia com a cena.

- Tá bom mano, para de ser nóia, você já devia ter entendido que não é todo mundo igual a Roberta. Meu irmão era viciado que nem essa mina truta e nem por isso eu fico entrando numas com os outros drogados... Ce tem que entender de uma vez por todas que o problema é da pessoa, não da droga. Você tá bebendo, porra! Odeio discutir essas coisas com um maluco bebendo uma breja na minha frente, vê se pode!
- Não é a mesma coisa.
- Ah não, é líquido e faz mijar. Só sei que já vi você fazendo cada merda bebão...
- E eu já vi você fazer um monte de merda chapado e...
- Então! É tudo a mesma merda!
- Não, não é não. Para começar o álcool é legal e não sustenta o tráfico.
- Não acredito que você vem com esse papinho de novo. Porra moleque, você tá assistindo muito Jornal Nacional.
- Vai dizer que o tráfico é uma coisa legal?

Denis ascendeu um cigarro e tragou com nervosismo.

- Existe porque é proibido, oras. As pessoas ficam loucas desde que o mundo é mundo.
- Mas um dia proibiram, porque as pessoas ficam loucas demais.
- Ou por que empresas sujas que nem a empresa que você trabalha tinham interesses nisso? Porque governos tinham interesses nisso?
- Que interesses minha empresa pode ter em proibir as drogas?
- Empresas sujas como a sua, não a sua, espertão!
- Pelo menos eu ainda tenho neurônios.
- Caralho mano, você engoliu uma Veja hoje?
- Ih, as bibas tão nervosinhas! interveio Jimenez, rindo.
- Biba é seu pai! retrucou Rafael.
- Quem me dera...
- Calma Rafa, calma porra! Você não era assim não velho, que isso?

Rafael ficou em silêncio por alguns segundos. Tamborilou os dedos na mesa.

- Muita crocodilagem nessa vida. Que nem a galera do trampo, tudo um bando de crocodilo! Sempre tem alguém querendo passar a perna em alguém... já não confio mais nem no nego que divide a sala comigo.
- É truta, o mundo dos negócios é assim, cheio de crocodilo mesmo...E é por isso que você vai começar a pensar igual a um crocodilo?

Rafael ascendeu um cigarro e tragou profundamente.

- Nossa mano, como você viaja, não é bem assim, a gente tava falando de outra coisa...
- Eu to falando sério. O que você falou faz sentido. Muita crocodilagem, a gente fica puto. Mas e ai, pra ninguém te crocodilar você vai se tornar um crocodilo você mesmo?
- Hahahaha, do que esses caras tão falando!
- Viu só? Nem o Jimenez tá te entendendo mais.
- Não galera, para de pirar, eu to falando sério! Prestatenção no seguinte: o que o Rafa ta falando aqui é uma idéia pronta, feita por eles, para definir como a gente deve pensar e agir. Eles querem te dizer que drogas usar, o que beber, o que comer, quando e como comer e beber, o que consumir de arte, de cultura, de ideologia, de tudo! Eles querem te dar uma forma única e pronta de pensar.
- Eles quem?
- Sei lá quem. Os donos do poder, o sistema, sei lá porra!
- Ah cara, você não acha que essa idéia de "o sistema" tá meio batida não?
- Foda-se cara, é só um nome porra, preciso dar algum nome pra poder expressar minha idéia!
- Use outro nome então.
- Sei lá, que tal crocodilos?
- Tá, até serve... Mas meus companheiros de trampo são crocodilos e não são os donos do poder, não são os que mandam no "sistema".
- Mas adorariam ser. E por isso são completamente coniventes com o status-quo, por isso fazem parte e são importantes para o sistema. Ou para a rede de crocodilos... para o pântano! Existem vários tipos de crocodilos. Acho que Sampa deve ser uma das cidades com mais no mundo! Olha em volta, nesse bar. Quanta gente não deve ter feito uma crocodilagem hoje, ou não deve ter uma para fazer? Aquele cara mesmo, aquela lá, olha lá Jimenez, o que a gente trombou no banheiro. Aposto que é crocodilo, tem até escama o filho da puta!
- Nossa cara, como você tá paranóico, tá ficando louco mesmo! E eu que achei que tava encanado!
- É nada, ele tem razão - interveio Jimenez, acendendo mais um cigarro - essa merda de cidade só tem crocodilo mesmo, se você que usar essa gíria. Só tem filho da puta! Mas se você quer saber, eu to pouco me fudendo.
- Que lindo, ele ta pouco se fudendo! Ninguém esperava nada diferente de você, Jimenez. Porra, cadê a Juliana que ainda não chegou? Pelo menos vai ter alguém para concordar comigo nessa mesa!
- Ah, chega disso Denis! Você fala demais... Chama o "meu querido" e pede logo mais duas brejas pra ver se refresca um pouco sua cabeça. Enquanto isso a gente vai ali no banheiro retocar o nariz, como diria a amiga do Rafa, que tal?
- Demorô.
- Que amiga minha, Jimenez?
- A Uma Thurman!

terça-feira, abril 15, 2008

SMS de segunda-feira

é que domingo foi passando
assim,
como não querendo atrapalhar nada

e quando o sol já batia fim de tarde
era hora de voltar
e foi isso

meio sem querer
acabou em desencontro

segunda-feira, abril 14, 2008

Motor complexo da palavra

.
Penso imenso meu íntimo,
ínfimo diante de tudo.
Ínfimo diante diz tudo...

imerso eu penso,
imenso eu verso,
inverso eu venço
meu íntimo tímido
diante de tudo,
desnudo...

e escrevo de fora para dentro,
pequeno como me meço me leio
entro no meu mundo, perplexo
o reflexo permeia o castelo
de areia é também o espelho
e o tempo na ampulheta...

atravesso a mim mesmo como quem reconhece
a palavra mentida em cada palavra lavrada:
em tudo a mesma cilada: eu mesmo, lavrador de palavras.

sexta-feira, abril 11, 2008

Hai Kai?

do olho do cú da filosofia
nasceu minha poesia
que pode ser tudo, menos apatia.

quarta-feira, abril 09, 2008

Sete Sonetos

IV - quarta-feira

cambaleei pelas ruas exalando álcool e desespero
buscando em cada esquina seus olhos doídos
enxerguei seu espectro sob a luz amarela do holofote
seu sorriso era o abismo ao qual me arremessei

pobre idiota! trespassei seu fantasma intangível
e num desastre risível acabei beijando o chão
pobre imbecil! torci o pé, quebrei a cara
divertindo os trabalhadores da manhã-escuridão

e meu sangue ralo verteu veloz e ridículo
pelos ralos sujos da velha cidade
esgotando o esgoto com meu egoísmo

e cada dia é um novo porre, cada segundo,
uma nova dor. basta de novidades!
quero a rotina de volta, por favor!

terça-feira, abril 08, 2008

De uma catraca a outra #9 - Eles não sabem andar de metrô! [parte 1]

Wilson gosta do metrô, pode ir a qualquer lugar que precisa - colégio, cultura, balada, visitar amigos. O que o deixa estressado são as pessoas que não sabem andar de metrô: 'Putz, esse fdp ainda não aprendeu a pegar metrô, sai da frente da porta pô.' - indagava consigo.

Depois que começou a trabalhar e estudar, teve que pegar mais metrô, e nos piores horários. O que o faz xingar 9 pessoas por viagem, as outras 9 que ocupam o mesmo m² que o seu no vagão. Dia desses, cansado da rotina, e da tanta gente que não sabe pegar metrô começou a enumerar mentalmente as regras básicas, mesmo não gostando de regras, começando pelas do sistema educacional do metrô:
1) Levar bolsas e mochilas na frente do corpo.
2) Utilizar os corredores dos trens.
3) Não permanecer junto a porta durante a viagem.
4) Respeitar os assentos de cor cinza.
5) Não correr nas escadas.
6) Não comprar nem das esmolas no interior dos trens.

E em seguida as suas próprias:
7) Não se escorar nas barras: impedindo que as pessoas se segurem
8) Ocupar sempre do centro do corredor pra porta, independente da quantidade de pessoas no vagão.
9) Abrir as janelas antes de se sentar
10) Segurar bolsas, sacolas, mochilas volumosas de quem está de pé
11) Não carregar malas em horários de pico
12) Entrar em fila nos trens, sem empurrar

Tudo pra voltarmos a ter um transporte civilizado, pra não sermos mais transportados como animais.

Segunda-feira, manhã pra jornada de trabalho, o que pra Wilson, deveria se chamar tripla-jornada - metrô-trabalho-metrô. Como não consegue pegar o metrô na estação Guilhermina-Esperança, sai 5min mais cedo pra voltar à estação Corinthians-Itaquera e conseguir entrar em algum dos vagões. Já devidamente posicionado no meio do corredor, se segurando na barra entre as duas cadeiras observa a entrada na estação Itaquera:
- Vai! Vai! - alguns diziam.
- Credo! Deus do céu! - aclamavam outros.
e muitos estalados de 'tsc'.

Um dos que embarcaram se posicionou a uma pessoa de distância de Wilson, pela simplicidade, algum desses trabalhadores como ele mesmo e tantos outros no vagão, carregando a mochila nas mãos, o trem começou a andar, deixou a mochila no chão e abriu a janela a sua frente sem encostar nos que estavam sentados. Esperanças renovadas - existem alguns especialistas em pegar metrô. Só não pergunte a Wilson, se eles podem salvar o metrô.

.
Aqui me desencontro.
e me peco onde me vejo mulher!
Cega!

falas,
falos,
feras. ; )

os corpos trabalham felicidades,
o sexo também é quase inútil...

estamina
a espinha
da rosa rosa-palavra
palavra teimosa...

o fardo não é a palavra
é o canto do olho
molhado de sol

anônimo estático
em si mesmo
se basta como o espelho
inverso da tua busca holofótica...

pelo canto do olho molhado de sol.

Daqui de onde me vês sou
seus olhos onde me vazo,
me esvazio...

posso e não quero.

terça-feira, abril 01, 2008

De uma catraca a outra #8 - Velocidade reduzida e maior tempo de parada

Dia de chuva, não há pior dia pra pegar o metrô que nos dias de chuva. E hoje só posso pegar o Lucas na creche às 18h00. Mas do jeito que anda, só 18h30:
- Os trens estão viajando com velocidade reduzida e maior tempo de parada. Agradecemos a comprrensão de todos.

Também se não tivesse compreensão todo mundo ia quebrar tudo e ninguém chega em casa.
- Só essas chuva pra parar a cidade.
- É São Pedro falando pra gente ir com calma.
- Só que a calma tá difícil desse jeito.
- ...é prova de fé.

Só com fé mesmo, eta vida viu! Vou ligar pra crache:
- Alô?
- Jardim da Mônica boa noite.
- Oi Sônia, é a Suzana.
- Oi Suzana.
- Tô ligando pra avisar que tô no metrô, e vou atrasar pra pegar o Lucas.
- Tudo bem, ele tá vendo TV com a gente.
- Brigada. Tchau!
- Tchau.

Pelo menos ele tá calmo com o atraso, porque aqui tá difícil:
# Empurra-empurra molhado? >>> quero meu banho!
# Sapato enxarcado? >>> atrás da geladeira resolve
# Que fome! >>> hoje vai ser chuchu refogado com ovo, frango e salada
Fora o tempo de parada maior nas estações, ainda por cima para na linha. Ouvi dizer que quando chove a luz cria um efeito fantasma pro maquinista, parecendo que tem gente na linha - se é verdade não sei, mas deixar fantasma atrasar gente bem viva, isso é errado!

Na creche...
- Oi Sônia, obrigada, e desculpe a demora, o metrô tá horrível.
- É nós vimos no canal 7. O Lucas até tentou te achar no metrô, mas...
- Mas o helicóptero só filmava de cima mãe.
- Fala tchau pra Sônia.
- Tchau tia.
- Tchau Lucas, tchau Suzana.
- Obrigada, até amanhã.

Enfim a volta pra casa...
- E esse moleque ainda me volta pulando nas poças!

segunda-feira, março 31, 2008

Dezessete segundos de mini-desabafo

Sinto falta de algumas feminilidades que as circunstâncias me subtraíram.
De cruzar as pernas por exemplo. Sinto muita falta disso.
Do balanço que embeleza o caminhar de qualquer mulher; das rasteirinhas, das botas e dos saltos. E de depilar as pernas regularmente.
São detalhes - cotidianamente, chegam a ser futilidades. Mas nenhuma mulher deveria perder esse tipo sutil de coisa. Faz falta.

a última alma adormece

para me acordar

a solidão aparece

quarta-feira, março 26, 2008

Curto # 34 (Eu em mim)

Alguma coisa mudou em mim:
meus poemas nunca foram bons
mas agora ficaram ruins...

terça-feira, março 25, 2008

De uma catraca a outra #7 - Aeromoça

Por vezes é necessária muita sensibilidade para salvar o dia. Por outras, pérolas brotam, e o dia pode começar com um: 'bom dia!'.

A letargia metrônica se dá ao fechar das portas do trem, o sono se mistura ao ar denso e quente do vagão superlotado, a respiração baixa e os olhos se fecham naturalmente, nesse dia fui interrompido por uma rotina modificada:
- Próxima estação Vila Matilde. Ao desembarcar cuidado com o vão entre o trem e a plataforma, evite acidentes graves.

O que despertou não foi o alerta, mas a voz dos alto-falantes, com a suavidade que raras comissárias de bordo, e/ou profissionais da voz têm, uma pronúncia clara e terna - a maquinista do céu, a viagem se deu incrivelmente agradável nessa manhã. Parecia que até o empurra-empurra havia dimiuido.

Me acusaram de iludido, mas meu 'bom dia' foi muito melhorado por esse fato. E então houve uma reação em cadeia de bons 'bom dia', um 'bom dia' animado pode animar, ou reanimar, uma pessoa, que pode responder com um sorriso e dar outro 'bom dia' melhor que o anterior - e assim até esbarrar novamente na loucura cotidiana pessoal. Com isso o começo da manhã foi garantido, o que nem sempre sustenta o resto do dia. Essa necessidade de âncoras de humanidade no centro de pedra, metal e eletricidade, pra suavizar o que nos foi roubado, ou reprogramado, pra uma pausa nos ponteiros do relógio. Quem precisa de um coração? Trens de aço? Homens de lata?

- Por mais maquinistas humanas!!!

domingo, março 23, 2008

(Sem Título) cap 2 Ticiano

Ticiano pegava o turno da tarde no movimento da viela da rua de trás. Era uma boca pequena, tranqüila, ficava na escada sozinho, pensando sabe-se lá no que, ou então passava tardes fumando e cheirando com os “amigos”. Claro que sempre era ele que botava a droga, que pagava com parte do salário, bastante gordo para os padrões da periferia. Sabia que a maioria da molecada bancava o risco de ficar fumando e cheirando com alguém do movimento pelo simples vício, mas não se importava, os viciados sempre existiram de um jeito ou de outro, pelo menos tinha companhia para passar as tardes vazias, sentia-se bem com eles, enfim, era um pouco viciado também, um pouco, ou muito, não sabia, usava e usava e não pensava muito sobre isso, estava lá, quase que fazia parte do serviço, muito ou pouco viciado sentia-se bem entre os viciados. Mas no fundo, no fundo mesmo, precisava disso para distrair a cabeça, pois pensava demais em Lurdinha. Amava demais a garota e, além disso, era um pouco, ou muito, ou médio ciumento. Quem poderia imaginar que o molequinho descolado da boca é tão inseguro?

Filho único de mãe solteira, queridinho, precioso, jóia da minha vida, meu campeão, Ticiano perdeu sua protetora no mundo aos doze anos, depois que um dos inúmeros casos que a bela morena mantinha, enciumado pela liberdade da rapariga, deu vinte e oito facadas no peito da coitada. Daí o menino virou homem, por força das circunstâncias. Mas mantinha suas infantilidades. A princípio, pensou que ia ficar maluco. Não sabia se a morte da mãe era boa ou ruim, estava impressionado, assustado consigo. De um lado, sentia falta da mãezinha querida, protetora, que fazia tudo por ele, trabalhava duro para pagar uma escola particular aonde ele poderia ter mais chances na vida, desde que agüentasse o preconceito, velado ou não, e os apelidos idiotas e quem sabe só um ou outro tapa na cabeça se tiver sorte. O importante é que você não está em nenhuma escola de traficantes, meu filho. Sentia falta da mãe que cuidava dele quando estava doente, que lhe contava estórias na hora de dormir, que lhe comprava doces e mimos, mesmo apesar da situação de dureza, da mulher linda que arrumava tão bem o barraco que o tornava tão aconchegante quanto aquelas casas da revista Caras. Mas outra parte de Ticiano se sentiu aliviada. Agora estava livre da proteção carcerária da mãe. Podia sair na rua, podia ter amigos da quebrada sem problemas, podia ir no baile funk do Capão, podia viver finalmente. E, pra melhorar ainda mais a coisa, não teria mais de agüentar as humilhações de seus amigos. “Hei meninão da mamãe, você sabe o que sua mãe faz a noite?”, “Ontem ela foi lá no barraco do meu tio Jéferson”, “Cara, aquela morena é quente demais, aqueles peitões!”, “Por que vocês não calam essa boca antes que eu quebre a cara de vocês?”, “Ih, olha lá, o menininho da mamãe tá nervoso! Pede uma chupeta pra mamãe, bebezão!”. Não, chega! Chega de humilhações, não seria mais controlado por aquela vaca, aquela puta que o deixava dormindo trancado em casa para ir se encontrar com metade da população masculina da quebrada. Mas o que iria fazer sem mamãe? “Se essa desgraçada ao menos tivesse parentes na cidade... Mas ninguém sabe de onde ela veio!”.

De todas as escolhas possíveis, como tentar virar flanelinha (as ruas já estão tão lotadas), vender chicletes no farol, trabalhar no lava - rápido do seu Jerônimo (gambé aposentado safado que paga uma mixaria e rouba a água de um manancial a partir de um poço na casa do vizinho), no sacolão da Dona Jurema ou quem sabe de engraxate em Santo Amaro, acabou escolhendo a mais perigosa e rentável, tinha lá suas vantagens, não seria mais humilhado, ganharia bem, seria respeitado na quebrada, foi trabalhar na boca. No fundo, no fundo, até que era um trabalho tranqüilo. Existiam muitas bocas na quebrada, e a boca da viela da rua de trás até que era pequena, como já foi dito. Quando muito, tinha que sair correndo da polícia, afinal a corporação é grande e nem todo gambé faz parte do acerto. Mas, em três anos de bocada, somente um de seus companheiros de trampo foi preso e também só três morreram em confronto com a polícia ou outros bandidos. E só um morador dançou por caguetagem. De resto foi sempre a maior paz. Era uma boca de rentabilidade média entre tantas maiores, não oferecia tanto interesse, nem pra polícia nem para outros traficas. Então ele ficava lá, de boa, fumando, cheirando, bebendo, xavecando as meninas, de noite pegava um buso e caia pro baile, depois voltava a pé com a molecada, dormia três horas mal dormidas no barraco antes de ir trampar de novo. Às vezes tomava um enquadro na rua, outras se envolvia em alguma briga (se alguém lembrasse da sua mãe, apanhava até sangrar), mas até que para um trafica ele tinha uma vida suave. Até ele conhecer a Lurdinha.

“Como pode alguém se apaixonar por uma menina que é o terror do baile funk?”, Ticiano sempre se perguntava. Lurdinha era um estouro. De calça baixa e apertada, umbigo de fora, ou então de micro saia branca e blusinha sem sutiã da mesma cor, rebolava até o chão com suas formas perfeitas enquanto os pais rezavam desesperadamente em casa. Perdeu a virgindade aos treze e aos quinze já tinha conhecido seguramente a cama de uma dezena de homens, ou quase homens. Beijar, então, tinha beijado metade do Capão. “O que eu fiz ou deixei de fazer não te interessa, Ticiano, a vida é minha, o corpo é meu, eu faço o que eu quero. O que importa é que desde que a gente tá namorando eu to só com você e nada mais, por que eu sô assim, tá ligado?”. Não, Ticiano não estava ligado. Por que ela, por que logo ela? Aonde ele estava com a cabeça quando pediu a menina em namoro? Tudo bem, era linda demais, gostosa demais, divertida demais, mas era uma piranha! Gostava de conversar com ela, gostava de passar as noites com ela, gostava de fumar um baseado com ela, transar com ela era uma experiência de outro mundo, mas era uma piranha! Ainda assim, não conseguia tirar a morena da cabeça, não conseguia terminar o namoro que o angustiava, não conseguia se livrar do medo de ser traído, achava impossível que uma menina com aquele “passado” conseguisse ser fiel. Mas o pior é que o namoro se desenrolava e, apesar do jeito todo gracioso que Lurdinha tinha com os homens, nunca houve indício forte que confirmassem os medos do jovem traficante. Tudo indicava que ela sempre lhe foi fiel, mas quem há de saber? Só sabemos mesmo é que no fim das contas Ticiano, definitivamente, não foi fiel.

sábado, março 22, 2008

Curto # 88

Triste fim do poeta ordinário:
O que lhe rende a poesia
não lhe compra um dicionário!

Trombada no passeio

- Desculpe, transeunte,
esse riso no meu semblante...
Trago a felicidade do mundo
no meu caminhar elegante...

- Leva daqui o teu mundo de pressa,
não te aborreças com a contramão!

- Sê tolerante com minha ilusão!
Esqueça a minha falta de modéstia,
só estou contente...

- Rufião!

- Dobra a esquina, seu mofina!
- Não seja tão pouco urbano!
(Meu passo está leve, meu coração vai cigano...)

Doutra feita te ensino o segredo.

Saiba, por hora, isso que sei:

- Esta lenta desfaçatez
delirante
vale mais que a rigidez ofegante
da tua busca agitada:

Se meu passo não movimenta a economia,
ao menos não fere a calçada...

sexta-feira, março 21, 2008

Mais coração, menos engrenagem

Vá a uma biblioteca, escolha um livro, abra-o e deixe na página escolhida uma mensagem para qualquer destinatário. Num elevador cheio, às 10 da manhã, entre e diga "boa noite". No corredor do shopping, puxe sua(seu) namorada(o) pelo braço e beije-a(o) como se aquele fosse seu último gesto em vida. Mande cartas a seus amigos com textos cifrados, com códigos próprios. Machuque troncos de árvores com a ponta da chave. Surpreenda pessoas queridas com mimos inesperados. Use a tecnologia a seu favor: dispare torpedos SMS em tardes ensolaradas, em plena semana. Aproveite a calmaria do domingo e sente no meio da avenida mais movimentada de sua cidade; se possível, leve alguém junto. Lave a louça e suje o nariz de quem você ama com espuma. Compre cartões postais, escreva e envie como se realmente estivesse naquele país, naquela cidade. Peça sobremesas difíceis de fazer para sua mãe. Distribua panfletos incompreensíveis em semáforos, praças e vagões de trem. Entre fantasiado em uma igreja. Construa uma casa-da-árvore. Compre uma bolinha amarela e brinque com cachorros de rua. Pratique o Terrorismo Poético. Todos os seres, humanos ou não, precisam ser tirados dos trilhos. Ainda que seja por poucos - e únicos - segundos.

quinta-feira, março 20, 2008

Curto # 17 - Deletério passeio no teleférico

Por um momento
acho que surtei,
não tinha com quem falar:
me liguei...

terça-feira, março 18, 2008

De uma catraca a outra #6 - Faixa amarela

Sol ardente: óculos de sol
caminhar? não dá
de tenis e tudo, o asfalto vence
e a sola do pé a pelar

gotículas, num veio
suor escorrendo pela jovem costeleta
fuga pela catraca

momento de frescor
não pela sombra
nem pela brisa da chegada do trem.

...

antes da faixa amarela, um laço amarelo
prendendo os encaracolados negros
da morena que o fez esquecer do calor

Sapatos-status

.
Calço meu novo par de sapatos.

Engraxados chocolate,
são um mimo precioso:
guardam o homem que virei
em cada honesto passo.

Levo ele às horas
dos meus passos,
estou satisfeito,
me sinto homem feito e me faço!

Eles andam imponentes, quase me deixam de lado...
Assim mesmo me sinto orgulhoso
e ganho a rua com vigor,
essa rua que me anda devagar nem me nota com meus passos cheios de humor largo...

Para mim, que nunca usei sapatos,
- Agora todo chão é novo!

Me sento, enrolo o tabaco,
e vem o menino-engraxate,
ele também chocolate,
pedindo pra engraxar,
o seu olhar abate
meu bom-humor peculiar...

é noite alta

e
(eu)
sem
graça
digo não:

- Essa ofegante ilusão, eu já vou descalçar......

(Eu existia tão feliz dentro dos meus sapatos, que nem notei o mundo!)

vem o menino me lembrar,
com o olho faminto, que está cansado...
e o pedido é só para despistar
a barriga que tem fome
com a ilusão de ter sapatos
para engraxar...

Olho bem no olho do menino chocolate,
e já que um troco vale um pão:
- Leva a moeda menino,
deixa os sapatos no chão!

sexta-feira, março 14, 2008

Se me perguntam, é concreta?

a

É,

Mas NÃO é

a

E se me perguntam, tem métrica?

aa

iiiiiTem,

MAS não TEM.

i

não TEM, NÃO tem,

e não tento,

eu intento!

eu atento,

e eu tento

Mas nâo tem(to)!

i

Então me perguntam, por quê?

i

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiPorque

i

iiiiSou,

Mas não sou.

i

Poesia é música,

Sou músico, musico.

Poesia irrita

Sou chato, irrito

Poesia é brinco,

E eu brinco com ela

Ou talvez seja um trinco

Mas nunca uma tranca

Poesia tem ri

_________it

__________mo

E eu dan______la

IIIIIIIIIçoiiiiiiiie

iiiiiiiiiiiiiiiiiicom

Poesia m

iiiiiiiiiiiia

iiiiiiiiiiiig

iiiiiiiiiiiir

iiiiiiiiiiiie

iiiiiiiiiiiil

iiiiiiiiiiiia

GORDUCHA ou ban_____gue___la

i

te amo, poesia!

te odeio, poesia!

me odeia, poesia!

me ama, poesia!

derrama, poesia!

de rima, poesia!

declama, poesia!

que clama, poesia!

reclama, poesia!

exclama, poesia

i

iiique é

mas não é

i

iinunca

iiiifoi

i

nem tão pouco será

(assim como o ser

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiihumano não é)

ii

iiiiiiiiiiEntão

A/Pra que(m) serve

Essa porra de

iiiiiiiPoesia?

iii

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinão serve

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia nada

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinem a

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiininguém

terça-feira, março 11, 2008

De uma catraca a outra #5 - Bancos de cor cinza

Um motivo de muita dúvida para Simone são os bancos de cor cinza nos vagões. Ela sabe de uma coisa - os desenhos da placa são muito legais - todos daqueles bonecos das placas de banheiro:
1) um bem velhinho, com dor nas costas, de bengala
2) um que quebrou o pé e usa muletas
3) uma grávida
4) e uma com um bonequinho bebê no colo

Simone ia pra escola de metrô desde os 11 anos, acompanhada do irmão mais velho, 14. Foi num desses dias, de volta pra casa, que começaram algumas dúvidas - as crianças de colo:
- Por quê a senhora acha que pode se sentar aqui? O aviso diz criança DE colo, e não criança NO colo. Seu filho pode andar muito bem. - desafiou uma moça.
- ... - a senhora um tanto intimidada, colocou a criança no chão, que já cansada do dia, sentou-se em cima dos pés da mãe.
- Pode sentar aqui senhora. Vou descer logo. - levantou-se outra pessoa.
- Obrigada.

Concluiu que o português afinal tinha de ser bem falado pra não haver confusões como essa, e começou a gostar de estudar português pra ser melhor compreendida. Tempos depois, por experiência, viu que quando a situação é denunciada, sempre há a solução, mas quando não há uma palavra sobre o assunto, o silêncio coletivo escondia a cor cinza do banco.

Hoje, com 12 anos, fica dividida nas opiniões. Sua mãe sempre dissera pra se levantar caso visse pessoas numa das condições da placa, independente da cor do banco em que estivesse sentada. Mas sempre ouvia um grupo chegar e não sentar no banco de cor cinza, ou então falarem pro que se sentava: 'É seu banco mesmo. Tá velho já.'. Mas - '...mas esses bancos não são pra pessoas velhas.' - reflexionava.

Na viagem o mesmo anúncio:
- Os acentos de cor cinza são de uso preferencial. Respeite esse direito.

Se era preferencial, não era exclusivo, pronto, estava tudo esclarecido. Alívio. Espanto mesmo foi quando desrespeitaram o banco na maior cara de pau:
- Minha senhora, a senhora já é uma aposentada, o que faz esse horário no Metrô?
- Eu ainda trabalho. - respondeu a senhora.
- Eu também. - respondeu cedendo o lugar.

Nas demais vezes, ao menos havia o: fingir-durmindo. Se irritava com isso, e às vezes dava pequenos pontapés como se desequilibrasse no trem:
- Desculpa moço.
- [cara fechada misturada a cara de pseudo-sono]
- [olhar desviado para o alto]
- ...
- Não é educação goela abaixo, é o mínimo de respeito pelo outro - algo tão difícil assim, se colocar na situação de outra pessoa? Por quê não ensinam isso na escola? - perguntava a si mesma.