quinta-feira, julho 26, 2007

Praga - Parte 2 de 4

No dia da festa os três pareciam empolgados, cada um a sua maneira. Como estavam terminando o colegial, ao contrário do que praguejara Juvêncio, agora quando bêbados falavam:

- Fooooooooooda-se: o Juvêncio!

Fernando e Fred se encontraram no Terminal Capelinha e seguiram juntos até a casa de Tico, de onde partiriam para o clube localizado a beira da represa, no extremo sul da megalópole. Fazia um frio glacial. Fernando estava ansioso, mas meio cabisbaixo, o olhar tristonho logo abaixo da toca preta. Sua namorada tinha terminado com ele e já estava com outro. Já Fred e Tico estavam extasiados, querendo comemorar a vitória sobre a descrença dos professores, dos coroas e do Juvêncio. Bem vestidos, cheirosos, as cabeças fervilhando, foram bebendo latas de cerveja morna e cantando, cada um com seu plano para a festa que viria.


Festa boa. Em pouco tempo Fernando já tinha esquecido seu primeiro trauma amoroso auxiliado por várias latas de cerveja, alguns copos de batidas adocicadas e, principalmente, por Carlinha, um antigo sonho que ele nunca se julgara capaz de realizar. Já Fred não tinha sonhos, tinha metas. Na metade da noite, juntou os outros dois camaradas para anunciar, orgulhoso:

- Galera, o bagulho ta loco, já catei cinco!
- Ta bom Fred, legal.
- To falando mano!
- Não liga pra ele não, Carlinha.

Tico parecia normal, embora um pouco quieto, mas por dentro estava agitado. Tinha planos secretos na cabeça. Sentia-se meio entediado

- Aí Fred, sei lá, tenho pensado numa coisa... To meio cansado desse bagulho de balada, de ficar com várias minas... Tá ligado? Sei lá, não sei explicar.... Elas não ficam comigo, sacou? Elas ficam com a casca...
- Caralho mano, que boiolice! - respondeu Fernando, caindo na gargalhada - Cansou de mulher?
- Para de zueira velho, to falando sério. Enche a cara, pega mina, vomita, enche a cara, pega mina, vomita... Isso tudo me parece tão vazio... Não é só isso. essa vida, essa escola, esse bairro, minha família, esse mundo... é tudo uma merda! Tudo é muito vazio...
- Ai, que dor... Como eu to triste... Quer saber? Por mim tudo bem, sobra mais mina pra mim.
- Você é idiota pra caralho, né? Queria encontrar uma mina pra mim...
- "Queria encontrar uma mina pra mim, queria encontrar uma mina pra mim, elas ficam só com a casca, é tudo vazio, ó dia, ó noite, ó céus, ó vida, blá , blá ,blá..." . Blá, blá, blá, entendeu? Isso aí é blá, blá, blá. Toma um gole dessa breja aí e cala a boca, ô cascudo! Ou parou de beber também, bichona?

e há tempos que uma menina parecia ser a resposta para curá-lo desse sentimento. Pelo menos por algum tempo. O único problema era o namorado dela, o Rafael. Molequinho marrento, pose de skatista, andava sempre com um boné enterrado na cabeça, fazendo cara de poucos amigos, desfilando com a pequena Débora como se fosse seu maior troféu. Tico se indignava.

- Se liga Nando: como pode uma flor dessas na mão de um cabaço como esse cara?
- Se liga você, Tico, que esse moleque aí é meio embaçado, já ouvi umas histórias meio bizarras sobre ele...
- Então truta, é disso que eu to falando! Olha só, que princesa! Esse olhar terno, cabelinho curto, sorriso meigo, tão baixinha, tão magrinha, tem cara de ser inteligente... Como pode? Com um babaca desses! Deixa esse cara vacilar.

Tico encasquetou, não havia jeito de tirar Débora de sua cabeça. A seu favor contou a idiotice de seu oponente. As três da manha Rafael deixou a pequena Débora na festa para ir à outra festa com seus amigos, botar mais um chifre na namorada e encher a cara de pinga e cocaína. Talvez fossem pro puteiro. Tico observava discretamente os dois. Após Rafael sair, ficou por um tempo olhando Débora lá, sozinha, sentada em um canto, tentando ligar para os pais do celular que não pegava. Era tão linda! O cabelo castanho claro meio liso, meio ondulado, curtinho, caindo nos olhos calmos, muito calmos. Aquela tristeza tão calma... Aquela saia curta, tinha pernas lindas! Achou que ia ter ciúme se ela virasse sua namorada. Namorada? Como assim. Namorada? Pensou por mais alguns segundos e decidiu. Foi até ela, levou um copo de refrigerante e uns brigadeiros. Conversaram até o sol nascer. Assistiram ao espetáculo lado a lado, afastados da festa, sentados em cima de um pequeno morro a beira da represa, mantendo, respeitosamente, uma pequena distância. Às vezes as mãos se tocavam e Tico corava, envergonhado, de um jeito que nunca ficara antes, parecia que ia encolher até chegar ao tamanho de uma joaninha. Era angustiante, mas era bom... O calor daquela mão pequena, tão raro, fugaz, homeopático, fazia desaparecer o corte daquele vento tão gelado. Ficava segundos sem prosseguir a conversa, gaguejava, esquecia o que estava falando. “Estou parecendo o Nando!”, pensou.


Tico deixou primeiro os dois camaradas e Carlinha em suas respectivas casas. Olhou para Débora e decretou:

- Agora eu vou te levar pra casa, mas antes a gente vai fazer uma coisinha.
- Como assim? Tico, olha lá, eu tenho namorado, meu pai já deve ta bravo...
- Relaxa mina. Você vai gostar.

Foram a uma pequena praça no bairro dele aonde compraram dois sorvetes baratos para cada um, desses que são feitos em máquinas engraçadas com várias garrafas de “suco” espetadas. Sentaram a sombra de um ipê roxo, juntaram suas últimas moedas, compraram um saco de pipocas e ficaram lá, conversando mais um pouco sobre suas vidas vazias. “Agora não me parece tão vazia” pensou Tico. O tédio dele realmente estava passando e algo a mais que isso estava acontecendo. Não demorou muito e Tico olhou para ela diferente, pensando que era aquela a hora, aquela ou nenhuma, tinha que arrumar um jeito de arrancar um beijo daquela menina.

- Olha Débora, vou te falar uma coisa, de coração... Err... O seu joelho... Bem... É o mais lindo que eu já vi na minha vida!
- O que? – disse Débora, olhando automaticamente para o joelho, estupefata.

Tico a beijou. Ela fez que ia resistir, virou o rosto, pediu para não ser tentada, mas acabou se entregando aos poucos. Beijaram-se, misturando álcool, tabaco, hortelã, chocolate, sal, medos e sonhos. Fecharam os olhos e no escuro se sentiram iluminados. De olhos fechados saíram da praça flutuando suavemente, tão leves (!), como plumas que caem para cima. Flutuaram, flutuaram e flutuaram e a lua foi apenas a primeira parada. Flutuaram como flutuam os amores verdadeiros enquanto se concebem.

2 comentários:

Gus disse...

porra, caito, quero ler o final logo!!! vc sempre para no clímax!!! será que eles serão felizes juntos? será que ele vai apanhar do rafael? será que nando e fred conseguirão ver o mundo de outro jeito?

.hi-fi. disse...

expectativas sim, mas acredito que vá adiantar uns bons anos dessa história e completar o significado de Praga!