sábado, maio 19, 2007

Sub-crônica # 09


___A mesa de madeira macia cheirosa apoiava a luz difusa e pouco carinhosa da manhã, entrando seca pela cozinha de janela sem venezianas. Emoldurada pela parede verde descascada da casinha de tábuas antigas, as migalhas de pão sobre o tom puído da toalha de mesa azul aludiam à uma eternidade que não lhes pertencia. Destacava-se a xícara de louça vulgar despejando o vapor iluminado em direção ao teto escurecido. Em contraste com as sombras, manchando geometricamente a simplicidade da decoração rústica, o silêncio apoiava seu cotovelo sobre a quina da mesa. O olhar, vazio e abnegado, inaugurava a solidão daquele dia.
___Impressionou-lhe a descoberta.
___Entre o que não viria a ser e o que fora, essa sensação de ser inexistindo, tomava-lhe o corpo que também já não pertencia a ninguém. Pensava estranho. Sem linearidade e despido, o pensamento se transformava no próprio corpo estrangeiro e obrigava-lhe a estar ali.
___O rosto de pele ressecada, siltoso, misturou-se à luz que vinha de fora, no momento em que os olhos despertaram. O susto foi a suspensão de tudo o que não fosse indistinto. A cozinha entrou abrupta pelos olhos recém descobertos.
___Corria-lhe com dificuldade o sangue espesso, desenhando-lhe sulcos nas costas da mão suada, num esforço silencioso. Em movimentos repentinos, as pernas cumpriam o rito nervoso de despertar, sem que lhes fosse pedido ou negado. A mão, tremendo miúda, carregava o braço para entregá-lo à coxa: e apertou o joelho com um esforço bonito de concentração!
___Ergueu a cabeça sentindo o atrito das vértebras na nuca. Suas mãos correram das coxas para o vão entre elas e a cadeira, sentiu a madeira como as vértebras e as mãos como o corpo inteiro. O olhar acostumou-se com o corpo, apoderando-se dele lentamente: era o não entendimento sobre o que o construiria de uma maneira diferente em seu último dia. O peso do corpo estava encerrado em sua própria natureza.
___Resistiu em levantar as pálpebras. A luz não incomodava fisicamente os olhos. Era a idéia de luz entrando, a razão do incômodo, a obviedade de seu estranhamento.
___A xícara, como um estrangeiro, anunciava.
___Levou uma das mãos até ela. Um de seus olhos enxergava assombrado pelo recorte da luz, o outro recebia a luz que vinha de fora. A imagem que se formava em seu cérebro errava a realidade e cada parte de dentro de seu corpo também tremia. A mão encontrou a imagem sobre a mesa. Ela estava lá?
___Não bastava a realidade do mundo para descobrir. Inventá-lo exigiria. O recordar de cada experiência, tornado tão inteiro, eternizado em cada imediata resposta a si mesmo, aniquilava todo o raciocínio cotidiano. Despir o instinto de inocência significava dar nomes, tornar-se fora. E então estava lá.
___Cerrando o olho iluminado, ele era novamente aquilo.
___Deu nomes e deu nomes às palavras. Cercando, invadindo-se com o que fora. Pelos olhos de dentro nasceu o silêncio substituído. Tremia também o silêncio, ao ritmo das mãos. O tremor ditava um ritmo e dava sentido aos instantes. Era tarde para não perpetuar o tremor, para não tremer entregue. Eterno e luzidio, o corpo terminava aos poucos e o silêncio caminhava invadindo as lembranças, reminiscências fugidias. Nada mais era ou fora real. O sentido escapava a tudo.
___Agora, poderia ser novamente repetido, mas o vagar entre o corpo e a ausência prevalecia, em frente à xícara de café amornado.
___Levantou-se em desacordo com a vontade do próprio corpo e apoiou a mão pesada sobre a mesa, assumindo uma postura indecisa quanto ao próximo movimento. A cabeça pendia à frente do corpo, e pela fresta das pálpebras, enxergou a xícara recortada pelos cílios desfocados e úmidos. Tentou, num esforço incontido separar o pensamento do corpo - mas o corpo já tornado pensamento era indivisível. Os braços tremiam pesados e impotentes, escuros e sem fôlego.
___Respirar seria mentir a natureza do momento.
___Pensou em quem poderia ter feito o café.
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(exercício primeiro de texto em prosa)

Um comentário:

Pri Lopes disse...

Cara, genial: "Respirar seria mentir a natureza do momento". Meus parabénS!!!