quarta-feira, maio 23, 2007

Com passos no Outono

Até onde eu sei, era um outono chuvoso. Podem tentar me convencer de que Ele não possui estação para chegar, mas eu vou retrucar: era outono, e chovia muito. Um dia tristemente úmido. Um mês que me pesava como roupa molhada. Eu tirei uns trocados do bolso e, de repente, meu nome mudou: era Sabrina, Iracema, Pollyanna. E ele aceitou, me deu o troco – também me olhou. Havia um silêncio surpreendentemente belo a nos separar. Havia também palavras de espanto que foram simplesmente pensadas. Olhei para a vidraça do estabelecimento mofado e a chuva caía também sem dizer nada: tap, talap, tap... Batia sobre o toldo que cobria uma pequena parte da calçada. E uma ave gorducha nos espiava imunda. Parecia esperar que algo colorido acontecesse naquele dia cinza. Era uma obra primorosa de Deus, pensei, aquela avezinha encrespada sob as persistentes gotas d’água, como se o mais importante fosse nos observar – ainda que logo em seguida o destino a deixasse morrer gripada. Estávamos os dois – os três, a ave olhava tanto que já estava lá dentro – parados diante dos ponteiros lentos do relógio de mogno pregado à parede. E eu pensei no quão brega era aquele marcador do tempo quando ele, que segurava o troco que eu ainda não havia pegado nas mãos – por medo de suas mãos não me tocarem e eu estranhar – de repente, ele falou uma data: 1941. Era o relógio do seu avó. Talvez, então, não fosse mogno, e eu estivesse enganada como sempre estive durante a vida toda em que permaneci acordada. Livre é quem sonha – ignorante dos perigos de voar quando não se possui asas. Eu, presa ao assoalho empoeirado, me sentia suja por não saber admirá-lo por toda aquela transparência. Sentia as palavras desmoronarem dos meus lábios. Porém, em contato com o ar que ele respirava, congelaram doces: ele, não Ele; ele, não eu. Porque Ele estava subentendido nos gestos, na situação embaraçosa de desejar viver para aquele estabelecimento antigo, talvez tocados por um sentimento antepassado, de casais que se amaram e produziram relógios de parede como aquele: tic, tac, tic, tac... Avisa, tempo, que está passando! Eu me recusava a olhar nos olhos dele, havia me tornado quase um móvel na sua frente. Muito mais do que uma mesa de centro, ele me observava atônito – impassível apenas o sentimento, que se mantinha constantemente altivo, embora eu fosse agora um móvel antigo. O sentimento: Ele. Sem pressa de nada, aperitivava cítrico. Era um passeio cíclico, ritmado – tic, tac, tic, tac, tic, tac – e um sorriso tímido povoou-me a face rompendo tudo. Se houvesse resposta para alguma coisa... e se houvessem perguntas! Fitei seus olhos escuros já sem medo de enxergá-lo dentro – Ele. Lá estava. Sorridente: atento. Como o cão que espera um olhar do dono e abana o rabo – chegou, chegou! Não disse nada. Ninguém diz nada. Ele definitivamente não precisa de cantadas. Impõe-se seco – imponente e calmo. As nuvens se abrem e dão passagem aos primeiros raios de sol. A ave se espreguiça. Parece mais cansada do que nós, e o tempo surrupiando sonhos lentamente, a gente não percebera. A gente! Agora éramos nós. Antes éramos sós. Eu e ele. Nós e Ele. Contentes. E a avezinha cinza, que depois da chuva sentia-se uma coruja e quis partir. Ela, que era um mero pombo. Mas eu não a julgaria naquele instante – nem ele. Eu, que poderia ter qualquer nome, e morar em uma cidade distante; eu, que antes dele era só um anel de prata escurecido, agora me sentindo um diamante. O sol finalmente batia à porta do estabelecimento, e ele se animou para desvirar a plaquinha verde: opened. Então, Ele entrou. Ele, não ele. Ele, não eu. Nós já estávamos lá. Ele por dentro da gente, entrou de repente: o Amor.

2 comentários:

Gus disse...

MEU-DEUS! Isso é lindo demais! Parabéns!

Marcos disse...

Como é leve...tudo triste, mas bonito e leve (como se o cinza fosse azul)...

Bonito! (sutil)