segunda-feira, maio 07, 2007

Espinhosemia

As flores têm espinhos. Fácil. Nem tudo é perfeito. Nem tudo são flores. E até o que é flor pode assumir cuniformas e espetar, incomodar, ou persistir, como bem quiser o bom entendedor.
Uma delicada mudança de estrutura, porém, pode fazer valer um novo sentido para muitas explicações. Procurar achar uma qualidade no meio de determinadas situações é nem sempre uma tarefa fácil, mas se faz necessário à medida que o ser humano procura motivos - às vezes os mais fúteis - para explicar-se; e à medida também que se há feitura de forças epopéicas para acreditar na mais frágil argumentação.
É preciso ter motivos para viver, infelizmente. É preciso que esses motivos causem prazer, por menor que seja, por mais que façam o indivíduo durar apenas alguns instantes a mais. Contudo, por mais breve que seja a explanação, por mais cabeluda que seja a autoconvicção - não que me faltem bons argumentos para que não o seja - cada um desses amortecedores de mente são como uma flor. É uma esperança que manda no subconsciente e o faz acreditar que a sarjeta da vida têm uma saída. É uma esperança. Sujeito esperançoso esse ser humano.
Como já disse, uma delicada mudança de estrutura, sim, pode fazer valer um novo sentido à muitas explicações. Às vezes, são os espinhos que têm as flores.

Uma flor de cacto. É exatamente a imagem contrária daquele ditado "Até as flores tem espinhos". É comum dizer que sempre existe algo de ruim, um porém. Fascinado com a imagem de uma flor de cacto, percebi que o contrário não só é real como é também natural, em uma interpretação inversa do ditado popular.
Engraçado o ditado ser tão popular e o inverso tão desconhecido. Quando se está na fossa, por que não se suicida? A resposta é que todo o ser humano é dotado de esperança ou de uma crença - por menor que seja - de que as coisas vão melhorar. Essa crença funciona como a flor. E tudo isso é apenas uma tentativa minha de entender, por exemplo, a felicidade na pobreza e na miséria, de entender porque a gente persiste em coisas que temos praticamente certeza que não vão dar certo, ou até mesmo o porque de eu usar a palavra “praticamente” enquanto tento explicar isso. A certeza nunca é absoluta.
Somos ilhas de esperança em meio à desolação. E não o inverso. E vem a metáfora: não são as flores que também tem espinhos, são os espinhos que têm as flores. E isso não é apenas isso. É muito maior. Porque existe a imagem da flor de cacto, mas existe também a do cacto na praia, cercado de água. Uma coisa englobando a outra, e fazendo a teoria se inverter a cada olhar mais abrangente tomado pelo observador.

2 comentários:

Caito disse...

Muito bom, gustavo. mesmo. e prova do q uma delicada mudança nas estruturas pode fazer.
Abraço

.hi-fi. disse...

há quem diga que na verdade é pura questão biológica, se agarrar a vida e se debater nesse mundo pra continuar...vivo! mas as flores insistem em aparecer