sexta-feira, fevereiro 10, 2006

“Bebê africano rende”

Essa eu tinha que enviar...Dêem uma olhada nas fotografias se puderem...



Hoje, no sítio do Terra na Internet, sob a imagem do rosto de uma mulher sendo tocada nos lábios pela mão de seu filho, li a seguinte chamada:

“Bebê africano rende melhor foto de 2005”

Seguia uma pequena notícia versando sobre “um dos prêmios mais importantes do fotojornalismo”, o World Press Photo, vencido pelo canadense Finbarr O’Reilly. James Colton, presidente do júri, disse: " Esta imagem tem de tudo: beleza, horror e desesperança. É simples, elegante e comovente".
Pensei sobre a história do fotojornalista sul-africano Kevin Carter, vencedor do Pulitzer do ano de 1994. Carter suicidou-se no mesmo ano, pouco tempo depois de ter fotografado a morte de uma jovem garota sudanesa. Suicidou-se, em linhas gerais, por ter obtido a imagem e nada ter feito para salvar a vida da menina. A fotografia de Carter é realmente impressionante. Crua, cruel. Difícil de esquecer.
Entre a fotografia de Carter, bastante real, e a fotografia de O’Reilly, existe uma diferença nítida: a preocupação de Finbarr O’Reilly com a estética da imagem. O fotógrafo, diante do horror da fome de mãe e filho, preocupou-se em obter um efeito visual esteticamente interessante, aos moldes da “National Geographic”. São premiações diferentes, claro. E desde 1994 até 2005, a repetição das imagens da miséria pelo mundo banalizaram a miséria real a ponto do segundo fotojornalista, diante da miséria real e viva, pensar na fotometragem de sua câmera fotográfica e no enquadramento e efeito estético da miséria impressos no jornal. As imagens ajudam a vender os jornais. Foto-Showrnalismo.
Mas a diferença não está apenas no interior do campo de atuação dos fotojornalistas. Nesses tempos, as imagens ganharam uma importância difícil de mensurar. O real não é mais importante, mas sim sua tradução em imagens, preferencialmente carregadas de enorme quantidade de maquiagem.
Capturar a beleza na miséria exige uma boa dose de amor à arte.


Marcos, 10 de fevereiro de 2006

2 comentários:

João Luis disse...

"Capturar a beleza na miséria exige uma boa dose de amor à arte."

Sim... uma boa dose de amor à arte, mas também uma incrível frieza de espírito.

Como diria alguns, é um trabalho sujo, mas alguém tem que fazê-lo, nem que tenha que torná-lo totalmente mecênico para não perder tua alma.

Marcos disse...

E aí João!

No texto eu quis tratar esse "capturar a beleza na miséria" com um pouco de ironia...por que não acho bacana elogiar a miséria e a desigualdade.
Preciso aprumar a pena.
Acho que não ficou muito explícito, mas era a idéia...

Abraços!