terça-feira, agosto 07, 2007

Os dias e as dores

Terça-feira, 7 de agosto de 2007, sete e meia da manhã. São Paulo.
Lúcia olha atônita para os óculos da mãe, deitados inertes sobre a mesa. Estão na mesma posição desajeitada há três semanas, desde que foram largados pela senhora que tinha pressa para sair e despachar um pacote para sua cliente.
Do outro lado da cidade, Fernando abre os jornais - eles não falam mais tanto no assunto. A sociedade retomou o ritmo cotidiano e ele deveria voltar ao seu em breve. A CLT garante dois dias de licença por luto; sua empresa, em que trabalha há 30 anos, lhe deu um mês. Ele se serve de café velho, anda pela sala. "Como se mede a dor de uma pessoa em dias?", pensa.
No andar de baixo, Carla vira o anel dourado de um lado para o outro no dedo. No silêncio da manhã, olha para o relógio, como se conversassem. O casamento no civil seria hoje, em duas horas. Ela jamais poderia imaginar que esse dia nunca chegaria.
Sete e trinta e cinco. Bruno olha a rua pela janela do seu quarto - agora só seu. Enquanto seu irmão arruma a cozinha e fala ao telefone com a seguradora sobre os reembolsos pelo funeral, ele mira a fachada do restaurante em frente. A levara lá há um mês, para comemorar o novo emprego de comissária de bordo.
O mesmo restaurante em que Flávia comemorou a notícia da sua primeira gravidez, há sete anos. Nesta manhã, ela chora baixo ao olhar para os brinquedos dos filhos. Em algumas horas, sua mãe chega para ajudar a arrumar o quarto dos dois (intacto desde o acidente), talvez encaixotar algumas coisas, doar algumas roupas. O rádio-despertador começa a tocar Norah Jones.
Michel desliga o som do carro - não gosta dessa música. Estaciona, sobe as escadas e pára durante alguns segundos em frente à sala que fora da colega. O romance dos dois era recente, quiçá fosse passageiro. Não importa - foi intenso o suficiente para sentir-se agora um viúvo bastardo. Doía não poder padecer sua falta em público, como fazia o marido dela. Ele abafa o nó na garganta e se apressa para ligar para o cliente.
Paulo ouve o telefone tocar, mas não atende. Acaba de entrar em um acesso inesperado de choro em seu escritório. Seus funcionários, que nunca o viram esboçar o menor sinal de sentimentalidade, tentam não reagir. A secretária lhe traz um copo d'água e encosta a porta da sala, para lhe dar privacidade. Tinha conseguido enfrentar com copiosa elegância e sobriedade a perda do pai até então. Sucumbiu agora, diante daquela planilha, ao lembrar de quando ele lhe ensinou, ainda menino, como se faz uma tabela de contabilidade. Desesperado, liga para a clínica da filha. Eles conversam - ela não tem pacientes até às onze.
Cida será a primeira; começa a terapia hoje. Ela não precisa acordar antes das nove, mas não descansa em seu sono. O avião que passou em frente ao táxi em que estava a persegue. Ouve as vozes dos passageiros gritando. O mesmo sonho, os mesmos calafrios. Levanta de súbito, suada, só.
No elevador do seu prédio, Ricardo fita o menu de andares e pensa "Fui um bom filho pros meus pais. Um bom irmão, um bom profissional, um bom aluno. Mas nunca tive a oportunidade de ser um bom marido pra ela", o coração pequeno batendo tímido.
Cumprimenta Cláudia no estacionamento e a desperta do devaneio. Terá de voar pelo trabalho hoje. Apavorada, não consegue nem bem ligar o carro. Não tem coragem de pedir para mandarem outra pessoa. Olha seu reflexo no retrovisor e respira. A vida continua. Ela tem que seguir. Todos eles têm.

8 comentários:

Caito disse...

Uma menina que estudou comigo (daquelas que a gente mal sabe que existe) estava no prédio da Tam, fora promovida uma semana do acidente. Que estranhamento. Valeu mesmo, belo texto, para não deixar esmorecer a vontade de continuar.

Diogo Lyra disse...

É a temida "roda da fortuna"...

Ju disse...

Brigada Cíntia, esse texto precisava ser escrito.

Roda viva que esmorece a gente. Roda mundo, que é pra ser possível de se viver.

Gus disse...

Clap, clap, clap. A incomensurável maleabilidade da onomatopéia já diz tudo. Muito bom texto, elos muito bem bolados.

Gus disse...

Clap, clap, clap. A incomensurável maleabilidade da onomatopéia já diz tudo. Muito bom texto, elos muito bem bolados.

Pri Lopes disse...

Sensacional! Você conseguiu extrair a inspiração de uma tragédia, sem aquelas mensagens clichês. Parabéns!

Cíntia Costa disse...

Gracias, people!
:)

DéboraLee disse...

LINDISSIMO...