domingo, agosto 19, 2007

D. Errante - 1

D. Errante sempre carregou, além do escudo e da espada, uma grande frustração: não poder lutar. Os motivos não eram ausência de preparo, coragem ou capacidade. Longe disso. Faltava-lhe o adversário.

A solidão de um treinamento sem propósitos lhe infligia profundos ferimentos. Para quê tanto afinco? Ante a inexistência de adversários, qualquer perspectiva de glória se esfacela. A fama que advém do nome, que não exige uma única gota de suor, é a derrota alheia imposta pelo avesso - e isso não dá título de nobreza, não concede insígnias.

Farto de estraçalhar as mãos em bonecos de madeira impassíveis e imunes a seus golpes, juntou umas parcas moedas, empunhou o elmo imaculado e seguiu caminho por vilarejos desconhecidos. A cada parada, amigos e porres. Mas nenhum desafio. Temiam-no. Jamais havia quem ousasse iniciar uma batalha. A covardia alheia vaticinava um fim que eliminava qualquer possibilidade de começo.

Nem a espada deixava a bainha. Nem o furor de uma batalha chegava a tomar-lhe o espírito. Era como se ele, o cavaleiro, trouxesse a iminente e inevitável morte incrustada em sua espada de prata. O que, naturalmente, era uma inverdade.

Continua... (?)

4 comentários:

Gus disse...

Por favor, fa�a disso uma hist�ria muito, mas muito foda. A introdu�o est� maravilhosa! Orgulho!

Cíntia Costa disse...

WO é uma perda sem ganhos.
;)

Gus disse...

ou uma vitória sem perdas

Caito disse...

Sempre procurando o inimigo invisivel. Que ele existe, existe.