domingo, agosto 26, 2007

De onde vem o tiro

Dava pra sentir sua própria pulsação em torno da superfície circular da boca do revólver apertado contra sua nuca. No começo, o cano estava frio. Mas, quando, logo depois de tirar a arma de sua cabeça e disparar contra os policiais, o assaltante voltou a ameaçá-lo, sua pele quase queimou.
O momento era tenso. Na posição em que estava, ajoelhado e segurado pelos cabelos, não conseguia ver muita coisa, mas podia perceber a respiração do outro tão tensa como a sua. Além disso, não havia muita firmeza, apesar da brutalidade, na maneira como segurava a pistola enferrujada (o cheiro de ferro se misturava ao da pólvora). A agitação maior tinha sido no momento do tiroteio. Agora, predominava o silêncio e a estabilidade. Ninguém se mexia.
Mil coisas passavam pela sua cabeça. Tentar dialogar, tomar a arma, fugir. A falta de coragem evidenciava sua sanidade em não fazer nada disso. O homem atrás de si estava desesperado e não pensaria duas vezes antes de atirar.
Haviam se passado quatro dias desde que sua SUV fora interceptada por dois desconhecidos, no bairro dos Jardins, área nobre da capital de São Paulo. Ele voltava do escritório mais cedo naquela quarta-feira e já estava pensando em passar o resto da tarde na piscina do apartamento novo quando viu um revólver pela primeira vez. A mulher tinha levado as crianças para verem a avó em Sorocaba, era a última semana de férias escolares. Passaram-se quase dois dias sem que dessem por sua falta.
No começo, parecia se tratar de um seqüestro relâmpago. Mas o veículo chamou a atenção de policiais despreparados, se iniciou uma perseguição desajeitada e ele foi levado para o coração de uma periferia que não conhecia. Os bandidos, transtornados, não sabiam bem como lidar com a situação.
Jogaram-no, já um tanto machucado, em um quarto pequeno e sujo de um barraco mal-cheiroso. Em um canto, uma cama sem estrado; algumas baratas mortas do outro lado. Pela boneca velha jogada no chão, parecia que o cômodo fora um dia de uma menina. Ficara ali até o momento. A única refeição que tivera foram dois pãezinhos dormidos na manhã anterior, quando um dos homens percebeu que estava ficando muito fraco e teve medo de piorar a própria situação. Pela TV, os dois descobriram que se tratava de um executivo conhecido e que a polícia vasculhava o perímetro do bairro. Suja, assustada e exausta, a vítima ouvia as discussões calorosas entre os dois. Nunca ficava só e sempre havia uma arma apontada para seu rosto.
Sem saída, os criminosos decidiram tirá-lo dali; pensariam no que fazer com ele - ou com seu corpo - quando estivem mais seguros. Um deles se adiantou, o outro se dirigiu à sala com o seqüestrado em instantes. Ouviram-se então tiros e gritos. Um deles, baleado, ficou no chão. Amedrontado, o outro agarrou o refém pelos cabelos e ali estavam.
Se por um lado sentia correr a adrenalina nas veias cheia de esperança de por um fim ao pesadelo, por outro não conseguia impedir o bombardeio de imagens de vítimas de fogo cruzado que vira tantas vezes no noticiário.
Foi quando ouviu o disparo fatal.

Um comentário:

Caito disse...

é, tem coisas que a gente demora para perceber!