quarta-feira, novembro 14, 2007

De natureza etérea [v1.5]

No perfume das rosas, na presença plantada em um lugar comum, trilhas de saudade. Quanto de vida nossos olhos não conseguem enxergar?

Arbustos de cinzas nos tornam cegos, no tempo que polinizam contradições a cada lufada de vento, em cada instante de vida - maratonas pelo lugar ao sol e nosso falho projeto, só porque nunca alcançaremos a altura da perfeição, sempre lembrados de nossa condição humana. Nosso karma no paraíso, nossa possibilidade: descobrir que podemos enxergar e fazer além do pó, e que podemos encontrar falhas até mesmo na cor - a beleza continua nos olhos de quem vê.

O tédio azul-céu de um blues pode prenunciar tormenta de fogo no dia seguinte: a colheita, o azul-vermelho de um tango acelera o coração. Tons que sublimam comovem os olhos, tomam os pulmões para a imersão do momento - noite escura num palco floresta, e a lua dourada refletindo em seu riso tímido de um segredo quase desvendado. Música.

Mais fácil é distinguir quente do frio, uma mesma palavra tem diversas temperaturas: na ternura de um mimo, lírio, ou aspereza de uma repreensão. O elemento principal de qualquer palavra pronunciada (o anunciante da estação), crava a devida atenção nos interlocutores - resultado de beleza... ou poder. Daninha, palavra enganadora, cresce em quem cultivar, alimentada por uma raíz plantada em dois ou mais corações. O ódio absorve calor do ambiente, da Terra, e acumula-o nos olhos, o ódio ruge na voz, ferve o sangue e cerra olhos, dentes e punhos - pronto, enxergamos em vermelho-sangue, e a grama alheia só importa ao vizinho. De raízes fundas também é qualquer semente germinada em contato casual - e toda raíz arrancada, galho quebrado é dor na terra.

Um buquê de rosas, seu perfume é a presença autenticada, maior que seu tamanho poderia inaugurar. O que os olhos desta vez não conseguem ver, e mesmo assim acabam em memórias, mais acreeditamos nesses laços invisíveis, que insistem em não desatar. Cetim.

[co-escrito com Thaís Ferraz]

3 comentários:

Priscila Lopes disse...

Bem bom, principalmente o final e a sintetização metafórica: cetim.

Vieira Calado disse...

Para "escritor barato" não está nada mal!
Gostei.
Um abração.

Caito disse...

com a pri, belissímo final alem de tudo!