quinta-feira, novembro 22, 2007

Atropelamento

Chegou mancando, adentrou na sala do Doutor. A cada passo, segurava um gemido, mas era forte e resistente. Sala de espera...

Espera,
espera,
espera,

- Senhor Gonçalves! - chamou a secretária - Pode entrar. O Doutor o aguarda na sala ao lado.

Agradeceu, como faria qualquer pessoa menos educada diante de tamanha simpatia. Levantou-se calmamente e andou coxo em direção à tal sala. Abriu a porta já foi entrando, mancando um pouco mais acentuadamente - como quando se está com vontade de ir ao banheiro e, à medida que se aproxima do urinol, a vontade cresce. Sentou-se. O Doutor palitava os dentes, estava meio sujo, umas manchas pretas na roupa azul, barba por fazer. Até aí, normal.

- Vamos ver, vamos ver, senhor...senhor...

-Gonçalves. Senhor Gonçalves - remendou.

- Era isso que eu queria dizer. Então, Senhor Gonçalves, conte-me o que passa na sua perna.

- Então, doutor. Eu estava caminhando na calçada, mas o trânsito era tanto que as motos cortavam por ela, e aí uma delas me atingiu. Acho que soltaram algumas peças.

- Hummm, nada que um apertozinho não resolva.

Pegou a chave, a graxa, o óleo, e puxou papo com o paciente enquanto atarrachava:

-Correria hoje né, estou fazendo jornada de 20 horas, comprei aquele sistema de injeção eletrônica de alimentação que resolveu meu problema. Agora posso atender muito mais gente. Parece que esse mundo não para de evoluir, né?

- Não sei não, viu, Doutor! Eu tenho um humano em casa que, esses dias, deu maior trabalheira. Estava com uma tal de doença do mundo. O mecânico disse que era um tal de estress.

3 comentários:

Caito disse...

Maldito Me(di/câni)co.

Muito bom cara! Abraço!

.hi-fi. disse...

[sci-fi]

Rodolfo disse...

palitando os dentes da engrenagem, resta a pergunta: "injeção eletrônica dói?"