Sábado de manhã: noite bem dormida, clima bom para uma caminhada, dia para descarregar toda energia acumulada na semana, começava mais um dia de rock`n`roll.
Ligar para amigos:
- Vamos até a Paulista?
- Vamos. Queria passar na galeria também.
- Blz! vamos de lá!
Caminhar pelo caos, sentir liberdade em cada passo, divertir-se com um local chamado rua. Galeria do Rock, encontre cds originais pela metade do preço, conheça a produção musical nacional e cumprimente os músicos.
- Tá procurando qual cd?
- To procurando uma fita do Fud.
- Chá quente para noites frias?
- Esse! Ouvi o cd Auto-mático, e me falaram dessa demo.
- Acho que não existe mais.
- Vou ver se acho Sonho Médio do Dead Fish também.
Uma boa maneira de saber dos shows pela cidade é catando flyers ou dando uma olhada nos cartazes.
- Vai te Blind Pigs semana que vem.
- Faz tempo que a gente não vai.
- Vamos nesse?
- Vamo ae! tava querendo ir em algum show.
- Hoje tem algum?
- Que a gente conhece não.
Quando não há o que assistir, faça você mesmo.
- De tarde vamos tirar um som?
- Na casa do baterista? Blz!
- Chamar mais gente?
- Quem tiver afim de tocar.
Amplificadores, bateria, cabos, microfones, guitarras e baixo. Hora de acordar vizinhos dormindo sábado de tarde, mostrar que desligamos a tv por um tempo. Dar nossos gritos de liberdade, acertar a cabeça de alguém emburrecendo numa poltrona, abrir os olhos através dos ouvidos.
Começamos a tocar: gritos como explosões a cada power chord, pulos de quem veio acompanhar. Quem não sabia tocar instrumentos, e queria soltar a voz, o fez. Revezamento também nas guitarras e baixo. Imagine uma grande jam session com seus amigos! Apenas o mosh não era possível.
*Como ficou depois registrado por um dos presentes: “E foi assim, com guitarras distorcidas, bateria caótica, espontaneidade, um solitário mas presente baixo, álcool, vozes desafinadas, rabiscos, fragmentos poéticos e performances... Com todos os ingredientes básicos de uma diversão diferenciada, livre, descomprometida, subversiva e desafiadora.”
Não demorou para vizinhos opostos à música juvenil começarem a provocar, não rendeu nada além de risadas e mais empenho nas músicas. Escurece e temos de competir com gritos e ovações de uma igreja, logo os vizinhos ainda não conformados que pararam suas atividades sabatinais começam a jogar bombinhas e morteiros, alguns se assustam, mas a música não parou um segundo. Foram 3 horas sem exitação do primeiro acorde à última batida nos pratos.
Escapar da mediocridade. Temer menos a morte, menos ainda a vida. Libertar-se de nossas angustiantes rotinas. Sentir o sangue correr na hora de começar algo e ir até o fim. Ao invés de dançar conforme a música, escolher a música conforme seus atos e escolhas, ninguém precisa escolher seu ritmo.
Calmaria na noite, consequência, assim como a rouquidão, de uma tarde de música e suor. Fechava-se o dia, uma noite rock’n’roll ficaria para a próxima.
[(*) citação by zé henrique lopes]
segunda-feira, junho 18, 2007
um bilhete para o meu amigo hi-fi
só para dizer
que você tem toda a razão
o rock é o que nos une, para sempre jovens.
[longa vida aos stones, beatles, creedence, joe cocker e todo o resto da galera]
forte abraço, camarada!
que você tem toda a razão
o rock é o que nos une, para sempre jovens.
[longa vida aos stones, beatles, creedence, joe cocker e todo o resto da galera]
forte abraço, camarada!
Simples assim
quero você
só você
só pra mim
só pra sempre
sou assim
sou a gente
só assim,
de repente
sem ter fim...
o problema
é que não sei
quem é você
isso é uma pena
só você
só pra mim
só pra sempre
sou assim
sou a gente
só assim,
de repente
sem ter fim...
o problema
é que não sei
quem é você
isso é uma pena
domingo, junho 17, 2007
Um pequeno desabafo estéril para alguém querido que está se fodendo
Eu diria que as chances de você não ler isso aqui nem sequer supôr a existência dessa pequena mensagem beiram os 99,9%. Isso é, portanto, uma bandeira branca contra um exército cego, uma semente jogada no deserto.
Dane-se. O que eu queria dizer é que a vida é muito mais do que você pensa. Que você não precisa disso e é muito melhor do que essa merda toda. Que eu tenho uma vontade quase bestial de jogar o coquetel molotov e ver tudo pegar fogo, mas que no fim das contas não cabe a mim fazer porra nenhuma. Quando tentei fazer, sobrou - obviamente - para mim.
Não sei o que é pior nesse caso, se o que você sabe ou o que nem sequer imagina (ou, pior, talvez imagine mas passe ao largo). Se é a expansiva desfaçatez diária, desprezível em sua obtusidade, ou se é o lusco-fusco do mundo paralelo sub-reptício que se arrasta pelos esgotos, pelas suas costas.
Resta, a mim, torcer aqui para que esse incêndio comece um dia, seja lá por que diabo de motivo. Porque isso tudo deixa a gente muito puto.
Dane-se. O que eu queria dizer é que a vida é muito mais do que você pensa. Que você não precisa disso e é muito melhor do que essa merda toda. Que eu tenho uma vontade quase bestial de jogar o coquetel molotov e ver tudo pegar fogo, mas que no fim das contas não cabe a mim fazer porra nenhuma. Quando tentei fazer, sobrou - obviamente - para mim.
Não sei o que é pior nesse caso, se o que você sabe ou o que nem sequer imagina (ou, pior, talvez imagine mas passe ao largo). Se é a expansiva desfaçatez diária, desprezível em sua obtusidade, ou se é o lusco-fusco do mundo paralelo sub-reptício que se arrasta pelos esgotos, pelas suas costas.
Resta, a mim, torcer aqui para que esse incêndio comece um dia, seja lá por que diabo de motivo. Porque isso tudo deixa a gente muito puto.
quarta-feira, junho 13, 2007
Pinga ni mim
Vi um homem vestido de terno e camisa. Ele estava completamente fora de si. Alfaiate é como lhe chamavam.
O vi primeiramente fora do ônibus, fumando um baseado no terminal.
Falava alto, as meninas passavam por ele apressadas, sem levantar os olhos, Senti um pouco de medo também.
Ele veio para meu ônibus. Parece que ele pega o mesmo todo dia, pela intimidade com que o cobrador falava da sua bebedeira.
Da falação, Alfaiate passou à cantoria. Acho que, em sua cabeça, ele imaginava estar fazendo um show diante da platéia.
Aos poucos, a atitude de reprovação e medo das pessoas se transformou em chacota.
E ele cantava, arrastava a língua, mandava beijos desengonçados, e o povo ria. No começo, timidamente, mas em pouco tempo, eram gargalhadas. O cobrador botando pilha "Canta mais, Alfaiate. Se você dançar também, ganha uma tequila".
Enquanto o ônibus seguia em êxtase humorístico, uma mulher no Capão Redondo derramou uma lágrima seca. Assustada com a própria fraqueza, a esposa de Alfaiate limpou o rosto e maldisse o marido.
O vi primeiramente fora do ônibus, fumando um baseado no terminal.
Falava alto, as meninas passavam por ele apressadas, sem levantar os olhos, Senti um pouco de medo também.
Ele veio para meu ônibus. Parece que ele pega o mesmo todo dia, pela intimidade com que o cobrador falava da sua bebedeira.
Da falação, Alfaiate passou à cantoria. Acho que, em sua cabeça, ele imaginava estar fazendo um show diante da platéia.
Aos poucos, a atitude de reprovação e medo das pessoas se transformou em chacota.
E ele cantava, arrastava a língua, mandava beijos desengonçados, e o povo ria. No começo, timidamente, mas em pouco tempo, eram gargalhadas. O cobrador botando pilha "Canta mais, Alfaiate. Se você dançar também, ganha uma tequila".
Enquanto o ônibus seguia em êxtase humorístico, uma mulher no Capão Redondo derramou uma lágrima seca. Assustada com a própria fraqueza, a esposa de Alfaiate limpou o rosto e maldisse o marido.
terça-feira, junho 12, 2007
quando era criancinha
era tímido feito tatu-bola
gestos desengonçados, fala pra dentro
só uma amiga feia e nerd
um dia cheguei atrasado a aula (como sempre)
e o rapagão do fundo
- alto forte feio, cara de mau, três anos na mesma série –
gritou maldoso:
apareceu a Margarida!
e daí pra frente, só deu Margarida.
Margarida pra cá, Margarida pra lá...
mas um dia Margarida morreu
um futuro amiguinho fez questão de enterrá-la
fez piada jocosa
xingou
empurrou
humilhou
até que o punho cerrado atingiu sua face sardenta
- Cara, que legal! Você arrancou sangue do nariz dele!
- Fui eu que fiz isso?
- Foi você, Margarida!
- Quer que eu quebre seu nariz também?
***
Margarida morreu.
nasceu azaléia branca
(pensando-se comigo-ninguém-pode)
era tímido feito tatu-bola
gestos desengonçados, fala pra dentro
só uma amiga feia e nerd
um dia cheguei atrasado a aula (como sempre)
e o rapagão do fundo
- alto forte feio, cara de mau, três anos na mesma série –
gritou maldoso:
apareceu a Margarida!
e daí pra frente, só deu Margarida.
Margarida pra cá, Margarida pra lá...
mas um dia Margarida morreu
um futuro amiguinho fez questão de enterrá-la
fez piada jocosa
xingou
empurrou
humilhou
até que o punho cerrado atingiu sua face sardenta
- Cara, que legal! Você arrancou sangue do nariz dele!
- Fui eu que fiz isso?
- Foi você, Margarida!
- Quer que eu quebre seu nariz também?
***
Margarida morreu.
nasceu azaléia branca
(pensando-se comigo-ninguém-pode)
terça-feira, junho 05, 2007
Réquiem por uma Palavra
Estava no ônibus, sentada sob um sol brando de Segunda-feira, a reparar nas pessoas envoltas em seu próprio amanhecer, no clima propiciado pelos seus mp3 players, I-pods - algumas ainda apegadas ao discman, mas não importa quais eram os instrumentos emanadores de música. O fato é que eu entendi tudo o que, até então, passava diante dos meus olhos sem me atentar. É que a música dá cenário ao nosso pensar. Mas pensar em nós mesmos. Pensar no que nos cerca, no que nos afeta. Ouvir música é ser, a certo modo, egoísta. É pegar esse pano de fundo musical e colocar no palco da nossa vivência, e pronto. Sentir o que a música te induz, mas só até onde você se permitir. Mas ler... ler é emprestar-se ao mundo. Às coisas que compõem o mundo. Ao mundo do mundo. É desprender-se da terra, da poltrona, do ônibus, da própria carne e habitar outro aspecto de vida – que às vezes nem é vida, mas vive descrito na página lida; esquecer-se de quem é; não ser. Ler é quase não existir para coisa alguma e vagar fantasiado de tudo que é lido, simplesmente no ritmo dado pela acentuação gráfica: Ah! Ler, este suspiro visual, é romper as paredes do corpo e partir sem tristeza; partir para ficar; permanecer ileso ao ambiente à sua volta, mas afetado por tudo. Estremecer por dentro, lendo o turbulento. Chorar, e tomar decisões que talvez se dissipem durante o retorno ao corpo, sentado na poltrona do ônibus que viaja preso à terra, no interiorzinho de Santa Catarina, vendo vacas beges pastarem impassíveis. Ler e rir, às vezes, doer de raiva de algo que nunca existiu nem aconteceu, mas que teve vida no espaço de tempo – incontável – em que você o lia. E eu escrevo para quem lê sem saber-se lendo; viver na palavra escrita, saltando de página à página, cada vez mais sedento. Eu escrevo absurdamente ávida. Meus dedos, humildes funcionários assíduos, trabalhando sem hora determinada – a escrita em nada se encerra, nem de maneira alguma se conforma. Alguém, do lado de fora da página, me espia por dentro. Passa os olhos nesta folha: sentem-se os dedos. E a mágoa eterna de nunca ser suficiente, jamais encontrar-me aliviada em texto algum, simplesmente porque não existe o que me avise: “está bom, pode parar por aqui”. A palavra me (con)vence. A palavra é que me (co)move. Somente ela é capaz de descrever sem podar o imaginário mais profundo dos seres humanos que estão sobre ela. Na superfície da palavra, eu me deito solenemente e sou levada: letra por letra, cada vez mais aflita, na busca - incessante e suspeita – pela coisa não escrita.
segunda-feira, junho 04, 2007
Sentir a falta de...
Que é que tu tens que tu cresces quando cutuca tua cútis com talco? Tão contente, quase crente que eu, carente, cruze causos entre a gente. Quase que eu te quero toda quente com tempero e pasta al dente, quase que eu te ponho em mente, de corpo presente.Pode parar de por dó e pena. Drena o pó, drena o palpitar, drena a dor, pode parar de pirar. Pressa com paródias pulhas, olhos molhados, filhos e falhas, fagulhas e talhas. Tome tento, vista a roupa, tiro a estopa da boca e grito: "Garota Louca". Não minimize minha manha “menos mãe, menos tamanha”, que amanhã a manha não nana, a manhã não amana, e a dama ama. E eu ruim e rasgado, roto, esfarrapado, rasgo o roto, rôo a gosto, degusto, dele gosto, encosto, e morro-te em mim, forte. Ruim de morte!
sábado, junho 02, 2007
Helenas
Primeiro dia de aula, nada diferente de um primeiro dia de aula do colegial, o diferente era que no 2o. ano não conehcia ninguém, mudança de bairro, mudança de escola.
A primeira pessoa que conheci foi Lídia:
- Oi! você é novo aqui, quer ir na cantina com a gente?
- Oi...Tudo bem.
E foi o sorriso mais lindo da minha vida. Não demorei a perceber que muitos tinham a mesma experiência que eu:
- Ae, qual seu nome?
- Mauro.
- Gostou da Lídia?
- é...
- Entra na fila! hahahaha!
Desânimo e vontade de lutar, aceitar o desafio, e vencer. O que acontece? Nunca fui de gostar das garotas mais populares.
- Opa, você é o cara novo da sala?
- Isso...
- Pega umas balas pra gente.
- Vaza, que ele tá com agente. - ela interveio. Essa mina é pra casar!
- Valeu!
- Nem liga, que cara folgado.
Não é dessas popularidades que a pessoa conquista, é quase sobrenatural. Daquelas pessoas que você confiaria um segredo no mesmo dia que a conheceu. Muito carisma, mas que atraía não apenas olhares e pessoas, atraía até mesmo palavras de agressão, como se qualquer atenção que ela dirigisse fosse uma valiosa jóia. No mais, um ou outro rapaz largando a própria namorada por um sorriso seu e sua companhia. Ela não possuía nada a mais que outras meninas em sua beleza, só podia ser assistida pelos deuses, não há outra explicação, uma própria Helena de Tróia.
[Helena de Tróia era a mais bela de todos os reinos, e de tão bela acabou num jogo de Éris. Éris elaborou um presente destinado a deusa mais bela, a discórdia se formou entre Afrodite, Hera e Atena. Afrodite prometeu Helena a Páris se ele a elgesse como a deusa mais bela, foi o que ele fez causando a guerra de Tróia.]
[+] http://pt.wikipedia.org/wiki/Eris
A primeira pessoa que conheci foi Lídia:
- Oi! você é novo aqui, quer ir na cantina com a gente?
- Oi...Tudo bem.
E foi o sorriso mais lindo da minha vida. Não demorei a perceber que muitos tinham a mesma experiência que eu:
- Ae, qual seu nome?
- Mauro.
- Gostou da Lídia?
- é...
- Entra na fila! hahahaha!
Desânimo e vontade de lutar, aceitar o desafio, e vencer. O que acontece? Nunca fui de gostar das garotas mais populares.
- Opa, você é o cara novo da sala?
- Isso...
- Pega umas balas pra gente.
- Vaza, que ele tá com agente. - ela interveio. Essa mina é pra casar!
- Valeu!
- Nem liga, que cara folgado.
Não é dessas popularidades que a pessoa conquista, é quase sobrenatural. Daquelas pessoas que você confiaria um segredo no mesmo dia que a conheceu. Muito carisma, mas que atraía não apenas olhares e pessoas, atraía até mesmo palavras de agressão, como se qualquer atenção que ela dirigisse fosse uma valiosa jóia. No mais, um ou outro rapaz largando a própria namorada por um sorriso seu e sua companhia. Ela não possuía nada a mais que outras meninas em sua beleza, só podia ser assistida pelos deuses, não há outra explicação, uma própria Helena de Tróia.
[Helena de Tróia era a mais bela de todos os reinos, e de tão bela acabou num jogo de Éris. Éris elaborou um presente destinado a deusa mais bela, a discórdia se formou entre Afrodite, Hera e Atena. Afrodite prometeu Helena a Páris se ele a elgesse como a deusa mais bela, foi o que ele fez causando a guerra de Tróia.]
[+] http://pt.wikipedia.org/wiki/Eris
sexta-feira, junho 01, 2007
Dois monólogos não formam um diálogo
Foi assim, num estalo, que se rompeu o silêncio onde havia mergulhado aquela mesa de jantar. Ou de almoço. Não fazia diferença, na verdade, já que mal pareciam uma família – na acepção clássica da palavra, a instituição que exige a existência de um pai, uma mãe e um par de filhos. Ali, eram todos estranhos uns aos outros, como se habitassem universos completa e radicalmente distintos – sem qualquer elo entre eles. Mas o estrondo vinha da sala ao lado, onde o caçula havia, mais uma vez, arrastado seu cadeirão para perto da janela. Gostava de ver a lua, dedicava horas e horas ao ato de contemplá-la, mesmo diante de críticas e comentários do pai, que achava aquilo uma inutilidade. Ele, o pai, doava-se a preocupações mais nobres, pois tinha bocas para alimentar e pouco tempo para viver. Repetia incansavelmente o mesmo trajeto, optando sempre pelas mesmas vielas que o levavam e traziam da firma. Jamais ensaiava pensar em qualquer possibilidade que não fosse aquela, que lhe servira como referência durante anos. Seu paletó, que variava entre o preto e o cinza-chumbo, preservava-se impecável, em eterna sintonia com gravatas atravessadas por opacas listas horizontais. Listas que também marcavam sua testa, sempre franzida por algum motivo não compartilhado. A mãe, aposentada por invalidez, sofria de fortes crises de identidade, e por isso fora afastada do emprego e do convívio social. Chamavam-na de bipolar. Sua vida, agora, resumia-se à miserável tarefa de bordar, bordar e bordar – incessantemente. Diziam que acalmava, que fazia bem à alma. Todos os dias, por volta das sete da noite, ia para a janela do oitavo andar à espera do marido, que diariamente lhe presenteava com indiferença e um novo carretel de linha, nunca em cores repetidas. Era a sua realização. Desfrutando de seus vinte anos, a menina insistia em trazer algo que lhe cobria as orelhas. Se não eram o cabelo ou as mãos, arranjava um fone de ouvido ou um telefone celular. Importante, essencial, era preservar suas fronteiras, manter-se longe de todos aqueles estranhos que ameaçavam sua soberania. Imagine o quão constrangedor seria falar de amores, namorados e universidade na frente daquela gente repulsiva. Impensável. Na sala ao lado, entretanto, o menino continuava a namorar a lua. Como conhecia muito bem a catástrofe que se instalara ao seu redor, o pequeno, mesmo sendo tão pequeno, já havia renunciado a todos aqueles protocolos, àquelas relações mornas, pragmáticas, oportunistas e racionais. Antes que seus pueris sentimentos fossem tragados e corrompidos pela pusilanimidade, reuniu forças e declarou sua independência: disse a si mesmo que fugiria dali e se casaria com a lua, ainda que fosse por poucos minutos.
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