quarta-feira, abril 16, 2008

(Sem Título) cap 3 Denis, Jimenez e Rafael

Quando ergueu novamente a cabeça e a inclinou para trás, Denis sentiu o gosto amargo da farinha atingindo a língua pela parte mais funda, chegando a boca através do nariz, como quando espirramos mastigando comida e um pedaço de arroz sai voando de nossas ventas (mas nesse caso o caminho é boca-nariz, não ao contrário como no primeiro caso). A boca secou, sentiu aquela desagradável sensação de estar com um ovo cozido entalado no meio da garganta, a narina esquerda ardeu, já um pouco cansada, mas a cabeça quase voltou ao lugar como planejera antes de entrar na cabina do banheiro ao lado de Jimenez. Farinha de merda, seria preciso mais uns dois ou três tirinhos daquele para fazer passar os efeitos do excesso de vodca barata. E olha que ele nem era um grande cheirador. Comparado com o Jimenez, seu companheiro de banheiro em tantas noites frias, até que era café-com-leite. Mas o foda é que a farinha era uma bosta, ele avisou o Jimenez, ainda bem que o cara é o maior playboy, comprou logo um monte de papel. Tá certo que ele vai cheirar bem mais da metade sozinho, mas e daí? Quem é que nega cocaína de graça?

- Vamo aí Jimenez, estica logo duas taturanas pra gente terminar que pegar essa merda de fila de novo vai ser foda.
- Toma, estica aí. Só não vai mastigar o plástico que é a minha vez.

Denis estava batendo o pó quando ouviu alguém gritando de fora:

- Vamo aê com essa merda, bicharada! Não deu pra gozar ainda? Eu quero mijar, porra!

Se entreolharam e sorriram. Se fosse o Rafael, Denis pensou, sairia do banheiro imediatamente e daria uma cabeçada bem no meio das fuças do sujeito.

- A nota.

Jimenez passou a nota de dez reais das novas, dessas plastificadas, e Denis pegou sua parte. Devolveu a nota e se afastou do balcão (sempre se perguntavam se aquele balcão só servia mesmo para cheirar). Jimenez aspirou sua tira da droga, visivelmente maior que a do seu amigo, e os dois saíram do banheiro. Na porta dois rapazes, se contorcendo de tanta vontade de urinar, tentavam manter a cara feia, quando Jimenez se aproximou de um deles, abaixou os olhos e disse, com sua voz grossa, sua entonação ligeiramente efeminada, visivelmente irritado:

- Da próxima vez vai lá fora mijar no poste, bi.

Era um rapaz de topete e camisa pólo verde clara, não parecia o tipo de freqüentador do lugar, o que estaria fazendo ali? Olhou para Jimenez por algum tempo, não pareceu tão intimidado quanto seu parceiro, mas no final cedeu a frieza daquela cara andina de seu antogonista. Denis não se conteve e deu risada.

- Vâmo maluco, vâmo pra mesa que eu já to pronto pra mandar outra breja.

Dirigiram-se a mesa do lado de fora do bar lotado. Quinta-feira, arredores da Rua Augusta, o boteco arrecadava muito mais do que suas sujas paredes poderiam fazer supor a princípio. Ao chegarem, Rafael esperava distraído com duas cervejas novas na mesa, fumando um cigarro de filtro vermelho que já estava pelo fim.

- Demoraram hein?
- Muita fila.
- Sei. Vocês estavam cheirando aquela merda.
- Tem razão, replicou Jimenez, era uma merda mesmo. Nunca vi farinha tão ruim.
- Vocês são foda. Ainda vão se fuder com isso aí.
- Porra Rafa, pede um quente qualquer ai pra você e não enche o saco!
- Tá bom, tá bom... É sem preconceito cara, só to falando isso por que sou camara...
- Tá bom velho, já sabemos disso!

Denis ascendeu um cigarro. Jimenez o seguiu.

- Tá, depois vocês vão ficar que nem a Uma Thurman naquele filme, que cheirava até farinha de trigo se encontrasse no paletó de um mafioso.
- Aquilo era heroína, imbecil!
- Sorte dela, Jimenez! Podia ser até farinha de milho que ela ia cheirar.
- Sorte dela, muita sorte. A mina teve uma over.

Denis se exaltou e começou a discutir com Rafael, que ascendia um cigarro na hora, enquanto Jimenez olhava, bebia, fumava e se divertia com a cena.

- Tá bom mano, para de ser nóia, você já devia ter entendido que não é todo mundo igual a Roberta. Meu irmão era viciado que nem essa mina truta e nem por isso eu fico entrando numas com os outros drogados... Ce tem que entender de uma vez por todas que o problema é da pessoa, não da droga. Você tá bebendo, porra! Odeio discutir essas coisas com um maluco bebendo uma breja na minha frente, vê se pode!
- Não é a mesma coisa.
- Ah não, é líquido e faz mijar. Só sei que já vi você fazendo cada merda bebão...
- E eu já vi você fazer um monte de merda chapado e...
- Então! É tudo a mesma merda!
- Não, não é não. Para começar o álcool é legal e não sustenta o tráfico.
- Não acredito que você vem com esse papinho de novo. Porra moleque, você tá assistindo muito Jornal Nacional.
- Vai dizer que o tráfico é uma coisa legal?

Denis ascendeu um cigarro e tragou com nervosismo.

- Existe porque é proibido, oras. As pessoas ficam loucas desde que o mundo é mundo.
- Mas um dia proibiram, porque as pessoas ficam loucas demais.
- Ou por que empresas sujas que nem a empresa que você trabalha tinham interesses nisso? Porque governos tinham interesses nisso?
- Que interesses minha empresa pode ter em proibir as drogas?
- Empresas sujas como a sua, não a sua, espertão!
- Pelo menos eu ainda tenho neurônios.
- Caralho mano, você engoliu uma Veja hoje?
- Ih, as bibas tão nervosinhas! interveio Jimenez, rindo.
- Biba é seu pai! retrucou Rafael.
- Quem me dera...
- Calma Rafa, calma porra! Você não era assim não velho, que isso?

Rafael ficou em silêncio por alguns segundos. Tamborilou os dedos na mesa.

- Muita crocodilagem nessa vida. Que nem a galera do trampo, tudo um bando de crocodilo! Sempre tem alguém querendo passar a perna em alguém... já não confio mais nem no nego que divide a sala comigo.
- É truta, o mundo dos negócios é assim, cheio de crocodilo mesmo...E é por isso que você vai começar a pensar igual a um crocodilo?

Rafael ascendeu um cigarro e tragou profundamente.

- Nossa mano, como você viaja, não é bem assim, a gente tava falando de outra coisa...
- Eu to falando sério. O que você falou faz sentido. Muita crocodilagem, a gente fica puto. Mas e ai, pra ninguém te crocodilar você vai se tornar um crocodilo você mesmo?
- Hahahaha, do que esses caras tão falando!
- Viu só? Nem o Jimenez tá te entendendo mais.
- Não galera, para de pirar, eu to falando sério! Prestatenção no seguinte: o que o Rafa ta falando aqui é uma idéia pronta, feita por eles, para definir como a gente deve pensar e agir. Eles querem te dizer que drogas usar, o que beber, o que comer, quando e como comer e beber, o que consumir de arte, de cultura, de ideologia, de tudo! Eles querem te dar uma forma única e pronta de pensar.
- Eles quem?
- Sei lá quem. Os donos do poder, o sistema, sei lá porra!
- Ah cara, você não acha que essa idéia de "o sistema" tá meio batida não?
- Foda-se cara, é só um nome porra, preciso dar algum nome pra poder expressar minha idéia!
- Use outro nome então.
- Sei lá, que tal crocodilos?
- Tá, até serve... Mas meus companheiros de trampo são crocodilos e não são os donos do poder, não são os que mandam no "sistema".
- Mas adorariam ser. E por isso são completamente coniventes com o status-quo, por isso fazem parte e são importantes para o sistema. Ou para a rede de crocodilos... para o pântano! Existem vários tipos de crocodilos. Acho que Sampa deve ser uma das cidades com mais no mundo! Olha em volta, nesse bar. Quanta gente não deve ter feito uma crocodilagem hoje, ou não deve ter uma para fazer? Aquele cara mesmo, aquela lá, olha lá Jimenez, o que a gente trombou no banheiro. Aposto que é crocodilo, tem até escama o filho da puta!
- Nossa cara, como você tá paranóico, tá ficando louco mesmo! E eu que achei que tava encanado!
- É nada, ele tem razão - interveio Jimenez, acendendo mais um cigarro - essa merda de cidade só tem crocodilo mesmo, se você que usar essa gíria. Só tem filho da puta! Mas se você quer saber, eu to pouco me fudendo.
- Que lindo, ele ta pouco se fudendo! Ninguém esperava nada diferente de você, Jimenez. Porra, cadê a Juliana que ainda não chegou? Pelo menos vai ter alguém para concordar comigo nessa mesa!
- Ah, chega disso Denis! Você fala demais... Chama o "meu querido" e pede logo mais duas brejas pra ver se refresca um pouco sua cabeça. Enquanto isso a gente vai ali no banheiro retocar o nariz, como diria a amiga do Rafa, que tal?
- Demorô.
- Que amiga minha, Jimenez?
- A Uma Thurman!

5 comentários:

.hi-fi. disse...

vamos fazer curtas com esse roteiro e distribuir no you tube

* hemisfério norte disse...

rsrrs
gostei

fui convidada para participar num blog, às 3ª 5ª e sábados estou no
http://miniminimos.blogspot.com/

beijos
e aparece

Marcos disse...

Time preto, time branco, time amarelo...Qual é mesmo a cor da sua camisa?! E a cidade-pântano-iluminada segue com a produção de crocodilos high-tech...

Caito disse...

Yuhu, TV Sindicato no yuotube!

Caito disse...

crocodilos high-tech. valeu mesmo marcão, bela imagem, será usada.