sexta-feira, janeiro 20, 2006

Era um cara normal. Um garoto normal. Vivia entre a casa, os “rolês” e a escola. Gostava de rock, tinha uma turminha de amigos. Fumavam maconha e bebiam pinga com coca-cola quando cabulavam aulas para jogar Winning Eleven. Jogava uma bola no domingo. Era tímido, ficava com menos garotas do que seus amigos, mas conseguia as melhores. Ou ao menos acreditava nisso. Acreditava também que não era bonito nem feio, e se sentia quase feliz com isso. Aluno regular, filho regular, pessoa regular. Tinha algumas idéias na cabeça, mas preferia abafá-las. Idéia polêmicas. Mas era melhor mesmo abafá-las. Cresceu, como todo mundo cresce, aos poucos, sem perceber, e continuava basicamente o mesmo, tirando algumas poucas mudanças. Já não cabulava as aulas, dessa vez da faculdade, para beber pinga e jogar videogame. Agora ficava no bar com a turma tomando cerveja. Mudanças na superfície, essência mantida.

Mas um dia, algo se quebrou. Sei, caro leitor, que isso soa meio clichê, mas a vida é assim mesmo. Algo se quebrou. Além disso, toda idéia é clichê, se analisada friamente. Ou, como disse o poeta ao carteiro, até a idéia mais genial, se repetida muitas vezes, soa idiota.

Como ia dizendo, algo se quebrou. Alguma coisa no coração daquele rapaz, na alma, na mente, sei lá, alguma coisa que mudou repentinamente, sem se fazer perceber, que lhe trouxe um desconforto que era antes desconhecido ou muito bem abafado. Sentia que algo estava tremendamente errado. Com ele. Com o mundo. Algo muito, muito estranho. Como eu disse antes, já tinha em sua cabeça algumas idéias, discordava do mundo em alguns pontos, mas no geral tinham um relacionamento bom. Mas, naquele dia, sentado em sua cama, ouvindo Pink Floyd e fumando um baseado, algo mudou em sua essência. Era assim que se sentia. Modificado. Era estranho, muito estranho. Não sabia se era bom ou ruim. Misturavam-se nele picos de amor e ódio ao mundo que o cercava. Sentia um misto de desprezo e paixão por toda a humanidade. Um misto de paixão e desprezo por si próprio. Pensava em si como algo estranho, externo, como se não tivesse pertencido a si mesmo até aquele momento. Não reconhecia mais seus gostos, suas opiniões, seus atos como seus. Era uma nova forma de percepção. Sentia-se dentro e fora de si, dentro e fora do mundo, sentia o paradoxo lhe invadindo as entranhas como um câncer impiedoso. Idéias estranhas partiam de seu coração rumo à sua cabeça como trepadeiras velozes que escalam um muro alto. Idéias conflitantes, deliciosamente paradoxais. Era realmente estranho. Não via sentido em nada e isso se tornara o verdadeiro sentido das coisas. Sentiu-se livre, porque finalmente sabia-se preso, não em um, mas em vários arcabouços. Mas tinha medo de tal liberdade. Suava frio, pensava em como administrar tantas mudanças tão repentinas. Pensou, pensou, pensou. Pensou mais um pouco. A cabeça já doendo e nenhuma solução à vista. Pensou mais um pouco, mais um pouco. Pensou tanto que cansou. Realmente não sabia o que fazer com aquele sentimento tão estranho.

Foi então que apagou o baseado, desligou o rádio e ligou a tv pra ver se passava.

4 comentários:

Thais disse...

Não sai desse corpo, que te pertence! Auto-revolução?

Marcos disse...

Passou?

Robson Assis disse...

Caio, convites garantidos, música não garantida. A maior gritaria de todas, sem noção nenhuma de ritmo, ou de tom, ou de coisa que o valha.

Mas quando houver outro concerto, os convites serão feitos!

João Luis disse...

Caito, Caito... e não é que vc me convenceu? Primeiramente, lindo o post, a vida é assim não é? Pena que na maior parte perdemos as pessoas que acordam algum dia...

Ah, meu blog... e assim que souber como funciona esse troço pode ter certeza que terá um espaço para este blog.