quarta-feira, março 14, 2007

Rosário

Morreu. Em vida, me chamava de prolixa. Eu não sabia o significado, mas ele insistia que eu devia fazer “assim, assado”. Eu queria ser Adélia Prado. Na música, tentei tocar Chico Buarque. Na “perifa”, falo gíria, sim: “Faz parte...” Mas a comida da minha mãe, ah, que delícia! Aqui é Floripa, qualquer “babado” é notícia. Até eu já fui capa de revista. “Grande mulher. Profissão: motorista.” Minha vida é como um flash. Só caminho para frente. Às vezes, engato a ré, mas ando sempre pé ante pé. Meu filho quer ser piloto de avião. Eu tenho medo de altura. Meu ex-marido – que Deus o tenha! – também gostava de dirigir. É de família! Mas dirigia mesmo a minha vida – canalha, demente, escroto! - Tocava cavaco, puxava o pagode até altas horas, bem perto do nosso barraco. O filho pequeno se agitava. Ficava sujando fralda até tarde. De medo. Medo de tiro. Tem nego que se estressa e manda bala nos malandros de arruaça. Nego que tem que trabalhar, é claro. O resto se junta. Faz batucada. A galera da “massa”. Tem medo de nada! Eu tentava escrever, mas o filho berrando, a cabeça rodava. Nunca me ensinaram a escrever. Aprendi nos livros. Mas sozinha. Sempre fui sozinha. Criei meus dois irmãos. Depois, crescidos, se afastaram. Ficou subentendido: Eles me amaram. Mas é como eu sempre digo: “Tem gente que pensa que o mundo gira em torno do próprio umbigo”. Não sou só eu que digo. Mas não vem ao caso. Assim como não vinha ao caso ele me chamar de prolixa. Jamais leu uma palavra do que escrevi. Nem lista de supermercado nem bilhete pedindo resposta urgente. Aquilo não era homem, não era humano, não era gente! Mas na poesia, eu fui Rosário. Vinicius que o diga! Caiu no conto do vigário. Perdeu o rumo nos olhos noturnos dessa mulata. Se a mãe dele me pega, é cadeia na certa – me mata! Mas eu nunca enganei ninguém. Era moça também. Gozei a juventude como bem quis. Tentei a música, a dança, quis ser atriz. Mas eu tinha pressa. Acabei “entrando pro táxi”. O poder de conduzir as pessoas! Porque chegava em casa, tinha que ouvir o vagabundo gritar: “Não fez arroz? Vou comer galinha com o quê?” E lá ia eu, esquentar a barriga no fogão, pra chegar na hora de servir e ter que ouvir: “Devia ter feito macarrão”. Casar pra quê? Minha vó aconselhava vida de mulher moderna. “Homem, se quiser muito, querida, tu paga!” Eu não dei ouvidos. Achei que a velha tava errada. Mas tava certa a danada! Contava as aventuras sexuais que vivera com meu avô para os netos, como quem conta uma história pra dormir. Parecia conto de fadas. Não fosse a pornografia. Eu sempre gostei de pornografia. Deve ser por causa da minha vó. Mas os olhos, dizem, são do pai. As orelhas, boca, dentes puxei da mãe. Um ou outro gesto do meu avô; o sorriso. Mas a tristeza veio do ex-marido. Pobre Romeu! – e que Deus o tenha! – Morreu.

3 comentários:

Caito disse...

Ah, que emoção, um dos textos que me fez pensar pela primeira vez em convidar vc pro blog. Muuuito bom. Prosa de altíssima qualidade, vai ser traduzida um dia! rs Já li, reli e lerei outras vezes.
Abraço!

.hi-fi. disse...

...escutar , encarnar, incorporar vidas. um dia em rosário, um segundo em romeu.

zé disse...

a vida tocada a encontrões. o eterno esbarrar em outros seres. os encontros e desencontros. e as conseqüências. que vêm, instalam-se e, por fim, são expurgadas. transformadas em cicatrizes que perduram. e que movem a roda em busca de novos encontrões. um após o outro.