quinta-feira, janeiro 03, 2008

Farol Vermelho

Ela está sentada ali
A me fitar, a me medir
Mede um relógio, mede um anel
Meu rosto alcança
Pede uma dança

Não cansa de perguntar
Com as mãos, com a boca muda, com o olhar
Se tem moeda, se tem trocado
E eu fingindo
Estar ocupado

Levanta-se então bem depressa
E um roto que lhe cobre a testa
Balança na brisa e avisa da dança
Pros bolsos da minha camisa

Faço que esqueço, faço um protesto
Mão no volante, outra na testa
Enxugo as sobras de consequência
Isso é obra da consciência!
Apanho migalhas brilhantes
Do bolso direito
Do jeito errado


Estendo a mão
Sou quem convida
Quem anuncia
Mais uma gota
De sub-vida
À alma-ida

Assumo a dança, e eis que então
Se aproxima com a cobiça em cada mão
Nas unhas sujas, na carne suja, na boca suja:
-Valeu, patrão!


E com as pontas dos dedos
Bem devagar
Afaga meu retrovisor esquerdo
Entristece o olhar
Num segundo inclina a cabeça
Estende sua mão para dentro
Apanha uma nota depressa

O farol desamadureceu
Eu me vou, cercado de breu


E enquanto me afasto
Eu noto no asfalto
Que os brancos dos seus olhos
Refletem no óleo da rua

No alto, na lua
Nem lembram que um dia existi

E enquanto me afasto
Eu noto no asfalto
Que os brancos dos olhos
Refletem o álcool

E o salto pro alto
Pr´além do real
Tô passado com o que está por vir

E meio que morri

3 comentários:

Vieira Calado disse...

Passei para desejar bom Fim de Semana
Um abraço.

Caito disse...

olha eu aqui elogiando sua poesia social.
abraço!

Rodolfo disse...

Bacana este jogo entre a dança e o desesperança (de quem?).
Muito legal o texto!
Grato pelas boas vindas.
Um abraço!