terça-feira, abril 24, 2007

"Transcender" ou "Além da Catarse"

Que a velocidade seja tamanha
Que com um relance eu veja apenas a turva imagem da fronteira
Que me atava à silhueta de potência
Que acreditava ser a capacidade máxima
Que um ser poderia atingir no período
Que considera vida,
Que talvez seja única, mas
Que a liberdade alcançada seja tão dolorosa
Que eu me derreta em lágrimas
E a última coisa a esvair-se além do tempo seja o meu sorriso

Poeminha brega para uma mulher grávida


que saudade de
ver a barriga
um pouco crescida
os seios inchados,
humor estragado,
a pele tão lisa,
meu Deus!
(que Deus?)
como é linda
essa minha mulher
tão distante
eu trabalho
ela em casa
carrega o
infante
trabalha
também
é gestante!
e o instante
não passa
jamais!

quero tocar
nesse ventre
que é quente
e abriga
uma gente
que ainda
não tem
nenhum
dente!

quero ver
meu parente
formando,
senti-lo
chutando,
virando e
virando
e virando
até se acomodar.

quero olhar
e chorar
e amar
e rimar
rimas bobas,
cantar canções
tolas
pra prole
nanar.

terça-feira, abril 17, 2007

Canção de despedida

Nem sei se chega a ser triste
Fitar esses olhos, velhos conhecidos
E ver que já não há mais nada
Além desse vazio que ensurdece

Inimigos tão cúmplices
Passamos a vida nos procurando
Para nos perdermos em tantos outros
Sem nem um aceno ou café da manhã

O vento desfez os castelos nunca habitados
Que teimoso construí para te coroar
E agora sozinho nesse abraço
Um beijo vazio
Processo arquivado por falta de provas
Sol que se põe e depois não levanta

Dançamos uma valsa devagarinho
Com gosto de cigarro e desistência
Sorriso torto, constrangido
Tua cabeça pousada no meu ombro
Nenhuma palavra por dizer
A vida passou por nós sem alarde
E aquele amor morreu sem sequer nascer

domingo, abril 15, 2007

rude - 09/set/2006

Numa tarde de sábado, estávamos atrasados e sem dinheiro, na Praça da República:
- Vamos procurar um banco.
- Blz. Vamos pergutnar onde tem um naquela banca.
Chegando na banca...
- Sabe onde tem um banco Dobrabil, aqui perto?
- ... - respondeu o jornaleiro.
- Por favor, sabe ond...
- Ah, agora sim: por favor, please, onegai shimassu!
- ... - reagimos.
- Segue essa primeira rua a direita.
- ...
E essa foi a demonstração mais rude que já presenciei - não foi uma tia gritando na absurda fila de 1h30 do banco, nem um cara expulsando quem durmia[ou fingia] dos bancos reservados do metrô. Esse jornaleiro me mostrou como exigir respeito, como desprezar quem não respeita e como dar uma lição em moleques!

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Ser desprezado, sentir ódio, e depois ver que a pessoa que lhe desprezou estava certa. Preocupante, mas justo. Ser rude com a falta de respeito, com a ignorância e com a hipocrisia. Direcionar o ódio a tudo o que é apático e estático. Desprezar estilos de vida medícores e bater, bater forte no que está errado e burro.

quarta-feira, abril 11, 2007

Confins sem fim

Se ela soubesse em que madeira pisar...Mas estava em ardósia. Calçava sapatos dois números maiores que seus pés planos queriam. Seu tio a chamou para conversar, mas Rosana escutou. Desconfiada do olhar pícaro que fez a esposa deste que lhe chamou, ela fingiu que continuava arrumando sua bicicleta. O tio sempre lhe dava doces e isso sempre lhe causava cáries. Menina sem mãe, tinha pai ausente e irmão desaparecido pelo mundo metropolitano. Devia estar em alguma esquina com alguma placa na mão ou um mini-rodo e água com detergente. Titio tinha bigode mal-feito e sua Rosana pelancas morenas que suavam o vestido de algodão vermelho. Tia dela arrumava o cabelo que lhe caia na cara, castanhos fios rebeldes que não se mantinham dentro do elástico de meia-calça velha. Ela lava a roupa numa bacia azul bebê enquanto a menina arruma a bicicleta que não tem pneus. Faz isso porque não sabe o que é esperança, mas tem em excesso.
O tio foi para a cozinha e derrubou café preto preto na xícara suja. Suas mãos têm cinzas, sujeiras e carrapatos. Ele a chama outra vez para lhe dar uma bala. Foi o doce mais gostoso que ela já comeu em todos seus 13 anos. Sente uma dor no último dente da arcada superior esquerda. Tudo vale a pena, até que a bala acaba. Seu tio continua ali na sua frente, Rosana arrumando o cabelo e suando sobre a bacia, seu irmão na esquina.
Santos é como chamam a seu tio. Ele limpa sapatos, corta madeira e vende produtos variados. De seu mercadinho vêm as balas para ela. Rosana é irmã de sua falecida mãe. Perdeu a esterilidade quando foi violada. Junto também se foi sua capacidade de amar. Tinha 17 anos quando isso ocorreu e logo depois conhece Santos, que a acolheu na saída de um pronto-socorro público. Eles não se falam, a menos que tenham que reclamar algo.
- Cadê o café? – pergunta freqüente do tio, geralmente sem resposta.
- Preciso de sabonete prá ropa – diz Rosana uma vez por mês para realizar o serviço que lhe rende uma grana correspondente a 1/3 de um salário mínimo.
Já a menina nunca diz nada, somente aceita as balas, dorme e acorda. Um dia, ganhou um pirulito. "Bala grande", pensou. Curtiu cada lambida sob o olhar atento do tio. Sentada no chão, pernas cruzadas, tranças cor de palha seca desarrumadas. Ela chupa o doce e pela primeira vez o açúcar em sua língua produz um doce inigualável: repara num menino que joga futebol na rua. Ele não a vê. Santos rói a unha. Ela lambe com mais gosto. O tio percebe que o olhar dela caiu sobre alguém. Dói-lhe o peito, dói-lhe o ventre.
Três dias depois vê o rapaz em seu mercado. Pergunta-lhe o nome e a idade com um sorriso que lhe sobe o bigode. O menino diz tudo. Silvio, 14 anos, órfão. Vive com seu irmão mais velho, Juliano, que trabalha de metalúrgico para sustentar os dois. Quando está no meio de sua história sobre como perderam os pais e mudaram para aquele bairro, Santos lhe entrega um pirulito.
- Bem vindo ao bairro, guri.
Silvio sai feliz da vida chutando a bola pro alto. O tio volta para o quintal e percebe que ela não viu nada. Melhor assim.

quinta-feira, abril 05, 2007

Sobre Holden Caulfield

Trata-se de um ser contraditório. Absorve e regurgita o mundo que o cerca a partir das mais evidentes futilidades, por meio de um vocabulário tão insosso e chulo quanto seu próprio cotidiano. À primeira vista, parece ser daqueles adolescentes típicos, cabeças-de-vento. Ainda meio verdes.

Entretanto, na medida em que a trama cresce, envolve e consome quem a acompanha, este mesmo personagem surpreende ao se libertar, em um ritmo quase imperceptível, da crisálida que outrora o escondia. Ao final do processo, vê-se um homem plenamente constituído. Dotado de uma maturidade que não decorre de tempo, mas, contraditoriamente, daquela mesma capacidade de absorver e regurgitar o mundo que o cerca a partir das mais evidentes futilidades, por meio de um vocabulário tão insosso e chulo quanto seu próprio cotidiano... De forma tão reveladora.

É fino e frágil como um graveto, quase raquítico, julga-se covarde, mas jamais renuncia ao direito de comprar uma boa briga – seja um duelo retórico com seus professores ou uma troca de sopapos com seu companheiro de quarto, esmagadoramente mais forte do que ele. No mais das vezes, mostra-se um jovem arredio, difícil de domar, e tão seguro do que pensa que chega a cometer grosserias ao desdenhar de opiniões alheias. Mas também gosta de ser simpático, ainda que raramente. Nestes átimos, costuma tratar pessoas que mal conhece como se fossem amigos de longa data. Sua receptividade chega a impressionar.

Sofre com as angústias do mundo, pois as acumula e não encontra canais para poder devolvê-las ao local de onde vieram. Reflexões circulam em sua mente sem parar, em um ritmo tão encadeado quanto os cigarros que vai consumindo. Um atrás do outro, de forma ininterrupta. Aliás, são justamente os tragos e a fumaça expelida pela boca que funcionam como um escapamento de pensamentos.

Carregando uma inerente ciclotimia, oscila entre momentos em que tenta desesperadamente se encaixar ao contexto do qual deseja fazer parte e outros em que decide desistir desta inclusão e assumir de vez sua vontade de andar fora dos trilhos. E é quando finalmente consegue se desvencilhar do olhar comum, mesmo que por pouco tempo, que Holden Caulfield, o apanhador, se desinibe. E perturba com sua capacidade de ver o mundo com olhos de quem o descobre a cada instante.

segunda-feira, abril 02, 2007

Ode ao Gato

sou grato ao gato
por sua gentileza
de me agraciar
com sua nobre presença
o gato é ser que pensa
pensa como gato
será que isso é errado?

gosto de observá-lo
sempre muito atento
a cada intervalo
a cada disparo
o gato é bicho raro
é bicho que pensa
e a desobediência
é coisa de gato
será que isso é errado?

o gato sobe na pia
e não me obedece
por que obedeceria?
ele não entende porque
não subir na pia
não vê sentido nisso
há algum sentido nisso?

eu vejo sentido, mas ele não vê

esperto é o gato.

não há sentido
em obedecer
quando não se vê
sentido.

quinta-feira, março 29, 2007

A imponderável mística amorosa

Era mistério. Porque havia tudo naquele olharzinho de nada que ela me dava quando se concentrava no que eu não havia dito. Perdido estava meu pensamento no instante em que ela me olhava. E no fundo eu acreditava no olhar dela mais do que em suas palavras. Evidente. A gente não se dizia, a gente se consentia e pronto. Parece que o ser humano se desumaniza no instante em que ama, e ama a si mesmo quando olha o outro e sente o coração se apertar de angústia alegre – amor! – que breve, breve... Ela possuía o (meu) mundo nas mãos quando eu estava em seus braços – porque o mundo era ela e eu naquelas horas de silêncio mútuo. Mas a mutualidade é bastante reversível, e às vezes ela falava tanto que eu pensava que ficaria mudo para sempre. Porque ela parecia entender de tudo o que eu, na minha miudez emocional, já desistira de refletir. O ser humano é uma escrivaninha repleta de gavetas. Eu abria uma ou outra, ela fechava minhas tantas, e a gente assim escrevia um romance. Porque as mãos percorrem sentidos como se massageassem o ego do outro, ou de si mesmo quando o prazer é recíproco – mas não vou falar de mutualidade novamente. Talvez fosse só princípio, e a história sem fim. Eu me derretia todo quando não sabia que horas iria levá-la embora. Por que cabia a mim a angustiante missão? Levar o que se pediu para trazer - ter que devolver. E eu nem podia compartilhar, sentimentos tão bobos que nem para se rir deles serviam. Na vida a gente pula de mistério em mistério, até descobrir que vida é redescoberta. Eu já havia sentido aquelas coisas tolas antes, mas não lembrava – e hoje nem penso mais sobre isso que é para não ter saudade do antes e acostumar-me a ser para sempre o depois. E depois veio o medo de não ser o que ela esperava e eu nem sabia. E ela vinha correndo me dar notícias do que eu seria: "uma casa com quatro quartos, eu quero ter um casal de filhos, meu sonho é morar na França". Quando a gente se depara com o futuro, perde o ritmo com que caminhava até ele. Um temor enorme de rendição ao tempo, e me subia pelo peito arrepiando tudo. Eu vou morrer colado aos lábios dela, ouvindo-a sussurrar “eu te amo”. A gente se sente romântico quando gosta de alguém de graça, e eu me satisfazia sem que fosse necessário sentir que ela também sentia – mas no fundo eu sempre soube. “Jamais teria dado certo”, é uma certeza confortante quando se está distante. Mas eu ali, tão perto que minha mão na dela parecia me conectar à outra vida, e eu me encontrava em diversos estados de humor. Apesar de tudo, nosso medo revirava o nada à procura de sossego quando éramos só nós dois. Um beijo no destino e boa sorte. Eu me sentia tão por dentro de tudo que ela, vista de fora, me assustava. Houve um momento deslumbrado em que olhei para ela e pensei que não agüentaria. Porque há limite para o sentimento, sim. A gente sabe até onde pode ir sem se perder de vista. E eu ali sorrindo e tocando seu pescoço, suavemente deslizando para dentro da sua blusa, a ponto de não saber mais voltar – nem faria questão – era o perigoso mistério do estar a sós com alguém. Mas nós já não estávamos sozinhos quando o mundo era ela e eu. Havia o passado um do outro, que perturbava tanto, o futuro a acenar por nós desesperado – não venham! – e um presente entrelaçado de razão e sonhos. O plano era não planejar nada. E o imprevisível instalou-se ameaçadoramente belo à nossa frente. Mas eu falava de mistério. O mistério somos nós.

quarta-feira, março 28, 2007

Queimando probabilidades

Encontramos pessoas conhecidas em lugares inusitados. Até que todo lugar não se torne mais inusitado para encontros ao acaso. Ainda temos mto que caminhar sem destino.

Surpresas do dia, inevitavelmente marcados na memória. Conspirações estelares, vodu, ou simples coincidência, não importa. Saborear os momentos de sorte, que se tornam mais frequentes qto mais amigos vc tem, qto mais eles se tornam importantes na sua vida.

Alguém do alto pode estar rindo de vc naquele dia em que tudo dá errado, ou com você nos dias mais caóticos-divertido. Não é necessário fé, só um pouco de sorte, que começa qdo a chama de sua vida entra em contato com outra.

quinta-feira, março 22, 2007

Lee via a garoa via Lee

Ando escuro
num vagar intranquilo
eu me disparo,
eu me futuro
eu desatino...

no teu sorriso.
anoiteço poeta,
se durmo mal dormido,

e acordo no teu olho exprimido
balbuciando confuso.

Lívida.
Que nem te conheço...

(e lívido)
que eu...
sou só um rascunho
em você.