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sexta-feira, agosto 08, 2008

Ódio, Rancor e Outras Mágoas - 4 Cecília

Não importa onde estava, com quem estava ou quando estava, nunca estava bem. Aparentava estar bem, extremamente bem. Mas a verdade é que nunca estava verdadeiramente bem, nunca esteve. Por trás dos olhos mansos como o mar, algo meio "acabei de acordar", da cara pacífica e da fala bem lerda, tinha uma mente que pensava alucinadamente, o tempo inteiro, falava, falava e falava, de certa forma contra a vontade dela. Queria calá-la, queria calar-se, mas ela estava sempre atenta, sempre pensando. Sempre algo a incomodava. Tinha medo das coisas, medo das pessoas, medo de si mesma. Na sua cabeça sempre uma voz apontando as pequenas e as grandes conspirações do mundo. Sentia-se errada. Sempre errada. Se estava entre pessoas, sentia-se estranha, angustiada, sozinha. Achava-se feia e desagradável, embora fosse bela e deveras simpática. Se estava sozinha, também. Não sabia se portar entre pessoas e, sendo ela uma pessoa, não sabia como se portar consigo. Não conseguia. Se sua mente não lhe azucrinava com nada muito filosófico, tinha algum desconforto corporal, seja uma dor, uma pontada, uma coceira, uma etiqueta cutucando, a calcinha desarrumada, meia entrando no tênis, cabelo fazendo cócegas na orelha, uma gastrite, estomatite, azia, prisão de ventre, gases, resfriado, sinusite, rinite alérgica, dores musculares, cefaléia, cólica. Nunca estava tudo bom e isso a angustiava. Sempre algo estava fora do lugar. Ela mesma estava fora do lugar. Não sabia o que fazer com as mãos, não sabia o que fazer com os olhos, não sabia o que fazer com os lábios. Ainda assim tentava. Falava, e os outros nem percebiam que se desesperava, mas tudo bem, tão pouco ela percebia que os outros não percebiam que se desesperava. Vivia em um mundo à parte. Vivia no mundo. À parte.

quarta-feira, julho 23, 2008

Ódio, Rancor e Outras Mágoas - 3 Desalmado

- Corre, maluco, corre!
- Que guéla , De Menor, puta que o pariu!
- Vai Chulé, caralho! Vaza daqui, a casa caiu!

A casa caiu. O cagueta era próximo, com certeza. Saiu do “túnel” - uma espécie de cova comprida e apertada, com mais ou menos 2 metros de profundidade, que começa a uns 20 metros da boca e segue o córrego até o outro lado da favela - e logo deu de cara com os gambés.

- Aí Chulé! Que beleza… Foi sorteado, cara! Vai tirar umas férias…

De Hortolândia, foi para Araraquara, de onde só poderia sair depois de três anos e meio.

- É, mina. Peguei um doze. Logo agora! Já tinha comprado a goma da coroa, só faltava a nossa…
- É. Só faltava a nossa…
- Aí mina, segura essa aí, logo, logo, eu to vazando dessa porra. Vamo fazê essa pelo pivete.

Não segurou. Também, nunca gostou muito do pivete. Resolveu doar a criança. Em poucos meses, Chulé recebeu o aviso da audiência.

- Porra, seu Juiz, essa mina tá loca!
- Porra? Você disse porra?
- Perdão, meritrísimo.
- É Meritíssimo!
- Isso mesmo… perdão… é que, seu juiz… essa mina quer dá meu pivete pra outras pessoa que a gente nem conhece cuidar? Qualé que é a dela? Aí, te digo de coração mano…
- Perdão?
- Digo… meri… tri..tí…ssimo… bota o pivete na mão da minha mãe aí, que ela é de responsa. Quando eu sair daqui, só vô andar do lado certo que é pra nunca mais faltar com o pivete.
- É mesmo?

Começou a chorar.

- Eu sempre achei que bandido não chora, seu juiz, e olha eu aqui! Se os caras do movimento me vê agora eu tomo um tiro nas idéia pra larga de ser bicha! Não tira o pivete de mim não, seu juiz… se ela não quer mais ele, deixa ele com nóis. Por favor!

O juiz não teve coragem de tirar o pivete de Chulé e o menino foi morar com Dona Zuleide. Chulé trabalhava o máximo que era permitido para poder reduzir sua pena, não parava de pensar na hora de ver o menino. Luis. Luis Eduardo Silveira. Lucho, que nem aquele argentino louco que tinha a conexão do melhor bagulho. Seu melhor amigo, por cinco meses. Não sabia uma palavra de castelhano e tão pouco o argentino era eficiente no português. Pra piorar, cada um carregava a fala com toneladas de gírias e corruptelas típicas de seus respectivos subúrbios natais. Ainda assim, se entendiam com perfeição. Queimaram muitos baseados, tomaram chá de cogumelo, muita farinha, mulher, docinho, cerveja e idéias na mesa do bar. Argentino estranho, trocava uma idéia diferente. Vez ou outra recitava até poesia.

- “Acciones negras descubiertas de repente como hielos, desordem vasto, oceánico, para mi que entro cantando como una espada entre indefesos”.

Chulé retrucava:

- Que papo de boneca… qualé que é, vai passar batom agora também?

Foram irmãos.

- Mira, como estás colgado!
- Que porra! Cagado é o cacete, Lucho, eu to é muito loco!
- Sí, loco, muy loco!

Lucho morreu. Luis, Luisinho, argentino loco!, Lucho. Três tiros nas costas. Jogava sinuca feliz no bar do Salada. Carlinha, sua namorada, viu tudo e chorou compulsivamente e sujou sua blusinha branca com sangue e pólvora e vísceras e arrependimentos. Nunca mais Chulé encontrou conexão de um bagulho tão bom (as vendas até caíram). Nunca mais chá de cogumelo no sítio,

- Lucho, Lucho, como é que fala mesmo, é “colgado”? Estoy colgado! Puerra, estoy muy colgado, amigo! Muy colgado!

nunca mais baseado, cerveja, mulher, farinha, docinho, idéias estranhas, nunca mais. Lucho Morreu. Assassinado. Lucho morreu. Atropelado. Saiu com a dona Zuleide pra comprar abobrinha e lingüiça, passou uma Ranger preta por cima dos dois. A dona Cleide, dona da venda do outro lado da rua, andou dizendo por aí que foi o Felipinho, um agroboy da região, mas preferiu não falar nada quando o Inspetor Gilberto lhe interrogou.

Chulé quase quebrou todos os dentes do carcereiro.

- Como assim meu pivete morreu? Minha coroa também? Cê ta me tirando? É mentira, caralho, é mentira!

Chegou o dia. Acabou a pena. Começou a pena.

- “Todo vale la pena se la alma no es pequeña”.
- Cala a boca, Lucho, ce já subiu mano! Que papo de boneca, porra! Você morreu. Lucho morreu, Lucho morreu! Todos! Sem coroa, sem pivete, sem truta forte. Será que vale a pena, Lucho? Vale porra nenhuma! Minha alma já foi vendida, truta. Já era.

segunda-feira, junho 16, 2008

Ódio, Rancor e Outras Mágoas - 2 Segunda

Barulho de máquinas, retirada, entrega para fazer, cigarro, café, orçamento, pedido, telefone, "Cadê meu material?", "O disco de retenção não suportou a pressão, vamo ter que trocar", "Prezado cliente, a Telefônica não constatou o pagamento da conta de telefone referente ao mês de...", estudo, hoje tem prova, capitalismo, revolução e contra-revolução, burguesia entreguista, jazz nas caixinhas do computador, telefone, "Poderia me dar o sinal de fax?", Eminem no rádio que toca perto das máquinas, telefone, mensagem no MSN, fome, cansaço, cigarro, cabeça doendo e rodando, telefone, mais cafezinho, cigarro, telefone, mais um cigarro, tosse, "separa o pedido da UVC", "ta faltando um cotovelo", banheiro, leitura de uma coluna pequena no jornal, telefone, cigarro, café, almoço, "Esse mato aqui de quem que é?", café, telefone, "Chamada a cobrar. Para aceita-la...", cigarrinho, computador, orçamento, e-mail, pedido, redige duplicata, redige promissória, "E aí, vai sobrar algum pra pagar o aluguel?", "Hoje não, quem sabe amanhã", estudo, hoje tem prova, transição pseudodemocrática, autocracia institucional, a farsa do mudancismo, "Você não vai fazer aquela entrega não?", carrega caixa, carro, trânsito, fila na recepção da empresa, volta, trânsito, cigarro, cafezinho, telefone, "Se o Sr. não tem condições de pagar o aluguel, então é melhor desocupar o imóvel", "Faz um favor então, querida: me processa", barulho de máquina, estudo, hoje tem prova, elites buscando uma nova fase de acumulação capitalista, submissão ao capital estrangeiro, a verdadeira democracia só é possível pelas mãos do proletariado, cigarro, café, "Dá um pulinho no banco, por favor", carro, trânsito, fila no banco, "Qual era mesmo a senha?", "É o senhor mesmo que assina pela empresa? Posso ver o seu RG?", "Claro que pode... (Vadia!)", outro banco, fila grande, estuda na fila, hoje tem prova, medo e delírio na extrema direita, esperança e delírio na extrema esquerda, Nova República, "A política dos notáveis, dos políticos orgânicos do conservantismo moderado, que se acreditam democráticos e humanístico porque não recorrem a chibata...", será que não?, "(...) não pretendem retroceder ao escravismo...", será que não?, "(...) e se cobrem de um manto de lantejoulas iluministas, seduzindo as massas com as palavras e as minorias com as ações", "Próximo!", "Cheque administrativo nesse nome, por favor", "Pronto, Sr.. Próximo!", volta, carro, trânsito, telefone, cigarro, café, estudo, hoje tem prova, "No conjunto, as elites políticas fizeram o mínimo possível para erradicar a ordem ilegal implantada pela ditadura", vista embaçada, cabeça confusa, volta o parágrafo, volta a página, mais um café, mais um cigarro, volta a página, "Chegou aquele cotovelo", banheiro, telefone, limpa correndo, "Amor, você pode me trazer dois abacates e alguns pepinos?", mensagem no msn, "E aí cara, blz? Estudo p prova?", estudo, porra, hoje tem prova! A democracia blá blá blá, "Acabou meu cigarro, vou lá embaixo comprar mais", caminhada, sol, céu azul... Ah!, um escadão qualquer num buraco qualquer de Diadema recortando uma favela qualquer... Crianças correndo, cachorro revirando o lixo, duas tias fofocando... Metade de um baseado,"Não tinha cigarro lá embaixo, tive de ir até a padaria", um bloco de notas surrado... Sete minutos de descanso pra não acabar fazendo alguma bobagem.

quarta-feira, junho 11, 2008

Ódio, Rancor e Outras Mágoas - 1 Quanto Dó Juliana Dá

PS: Olá pessoal, vou republicar alguns contos, que pretendo publicar algum dia qualquer reunidos sob o nome acima, com algumas pequenas alterações e revisões, que mas é possível que tenha deixado passar algo. Sabe como é. De qualquer maneira, aí vaí o conto. Valeu!

Quanto dó Juliana dá. Quanta pena a pobre balzaca causa. Não é a pele precocemente enrugada, marcada por anos e anos de copos e cinzeiros transbordantes. Não é a barriga meio mole, tornada flácida após a extração do filho tardio. Não é a falta de pigmentação no colo que ela ostenta desavergonhada em ousados decotes que expõem seus fartos seios branquelos. Não é a perna peluda nem a cara lavada de mulher descompromissada com esse tipo de vaidade. Nada disso incomoda, irrita ou causa pena. Na verdade, é linda. Os longos cabelos negros (nº1), os traços delicados, os olhos verdes, os lábios finos e o corpo lânguido lhe conferem uma beleza que não carece de adornos.
Também não é sua pobreza a causa de tanta comiseração. Não é lá muito endinheirada, é verdade, mas o salário de securitária sempre sustentou sem maiores problemas. Não da pra usar Lancôme para hidratar as mãos e a ração da bicharada certamente não pode ser DogChow. Mas comida, cerveja e DVD pirata nunca faltam. Pode até faltar comida e DVD pirata, mas cerveja nunca falta, o que não vem ao caso, também não é o alcoolismo que tanto causa dó.
O problema da moçoila é simples: o coração. Bregamente falando. Juliana, pobre coitada, não sabe amar. É casada, claro, tem filho, irmãos, cachorros, gatos, cuida da mãe velha e doente. Cuida por amor. Atente ao que eu digo: Juliana não é incapaz de sentir amor. Aliás, o sente em larga escala. Mas o problema é que ela não sabe amar. Tem medo. Pavor. Pânico! Juliana, quando ama, odeia. Ofende, chateia, provoca. Quando precisa dividir, desespera-se (Será egoísmo ou medo?). Esconde o que é seu e usufrui do alheio. Desdenha do outro, despreza, insulta, ironiza, sempre se pondo acima. Sempre descendo mais baixo.
Pobre Juliana, assim foi educada. Foi ensinada, com muito carinho e muito amor, a odiar. Posta desde cedo acima do resto da humanidade, sempre foi considerada a menina mais bonita da cidade (a mãe quase morreu de alegria ao ver que, graças a deus!, nasceu branca), cheirosa, limpinha, de classe, sangue azul ("Você não é como essa gentalha que mora aqui nesse fim de mundo, querida! Você é linda! Você é nobre! Você é clara..."). Juliana é tão grande, tão magnífica, tão suprema (!) que se sente traída por si mesma quando se percebe desenvolvendo carinho por algum ser muito inferior. E absolutamente todos os seres são muito inferiores.
Juliana não gosta de pobre, embora também seja um pouco. Não gosta de preto, embora também seja um pouco. Juliana não gosta de nada, nada, nada que seja um pouco diferente dela mesma, modelo de perfeição a ser seguido. E o pior é que a trintona enxuta é um indivíduo bem específico.
Coitadinha. Fosse menos gostosa, talvez acabasse sozinha. Talvez esteja sozinha agora. O marido gordo e bêbado largado no sofá degustando um sandubão de mortadela. O filhote, nariz escorrendo, puxando a cortina e derrubando os bibelôs da estante. A sogra ("Velha maldita, tomara que morra logo dessa porra desse câncer!") gritando asneiras enquanto cozinha uma sopa pro "menininho" e ela lá: complemente sozinha, reciclando mágoas antigas, misturando-as as novas para formar mágoas maiores e mais resistentes. Odiando conviver com aqueles que odeia, detestando amar aqueles que ama.

***

Quanto dó, Juliana. Foste a pessoa mais detestável que eu mais amei em toda minha vida.