Capítulo 83 - O cara da bermuda vermelha
Eram 17h25 quando o cara da bermuda entrou. O dia estava uma bosta. Como em todo o sábado, a loja estava bombando e eu, atendendo mais de uma pessoa por vez.
Já tinha atendido, inclusive, umas seis pessoas e fechado só uma venda ridícula de R$ [valor baixo].
Uma das clientes ficou 40 minutos se decidindo entre duas calças, não levou nenhuma e ainda reclamou do atendimento. Estava só esperando o [vendedor chato] voltar do descanso dele pra tirar a minha meia hora quando o [cliente] me abordou.
Com um sorriso desanimado perguntei seu nome e o que estava procurando. Uma bermuda vermelha. "Qual o seu tamanho? Ok, você aguarda um minutinho que eu já trago? Vou só levar essa blusinha pra moça no provador."
A moça do provador, uma gordinha que insistia em provar peças menores que ela, ficou um tempão reclamando da modelagem da loja, que o "M" daqui é menor que o padrão e o caralho a quatro, e eu esqueci completamente do cara.
Ele ficou uns bons 15 minutos esperando a bermuda. Quando me despedi da chata (que pelo menos comprou uma blusa), foi que o percebi perto das camisetas. Ele olhou pra mim, morri de vergonha. "Desculpe, querido, to trazer sua bermuda já! Qual o tamanho mesmo?".
Pra minha surpresa - e sorte - ele estava calmo e não reclamou. "Agora, pelo menos, você tem que dar atenção só pra mim!". "Ótimo, amigo, tudo que eu não quero é atender mais uma cliente pentelha". Pensei, não falei. Só um sorrisinho bastou.
Em 10 minutos, ele escolheu uma bermuda e aceitou uma camiseta que ofereci e resolveu o assunto. Não reclamou de nada, não me pediu pra ver mais dez coisas, não se estressou com nada. Foi um sopro de tranquilidade num dia de merda. Pela primeira vez em cinco meses eu quis que não tivesse sido tão rápido.
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terça-feira, maio 06, 2008
segunda-feira, abril 28, 2008
Entre a vitrine e o estoque - Memórias de uma vendedora de shopping
Capítulo 42 - Primeiro emprego
Chega uma hora em que a adolescência acaba e a gente começa a querer trabalhar.
Pra algumas pessoas é uma necessidade, pra ajudar em casa. Pra outras é aquela história de ter seu próprio dinheiro, não ter que ficar pedindo pros pais, dependendo de mesada. Eu tinha que pagar a faculdade.
Cada grupo social tem um padrão para o primeiro emprego. O pessoal mais pobre vai ser faxineiro, office boy, essas coisas. Tem gente que procura trabalho em escritório, atendimento em banco, aprendiz de qualquer coisa.
No meu círculo, as meninas iam trabalhar em loja de shopping.
Quando chegou a minha vez, foi pra lá que eu fui.
A verdade é que todo primeiro emprego é uma bosta, não importa a área. Além do trabalho em si ser sempre aquilo que ninguém mais quer fazer, Você ainda não sabe nada sobre nada e a empresa, que sabe disso, monta em cima.
A chefe inventa reunião, você vai. Inventa regra sem sentido, você segue. Diz que você não está se esforçando, você acredita. Faz de conta que seu cargo é disputado e importante pra te fazer se decidar e você fica lá, trabalhando com medo de ser mandado embora por qualquer coisa.
Mas a gente não sabe disso quando resolve trabalhar.
É por isso que eu fiz um currículo todo bonitinho, pus uma foto bonita e fui toda produzida entregar nas lojas. Mais de 50 lojas em 3 shopppings. Entrava toda sorridente, chamava o gerente entregava os papéis como se eu tivesse nascido para vender roupas.
Parecia uma ovelhinha retardada indo pro matadouro achando que, sei lá, tá indo pastar. E você só percebe o papel que fez quando vê outra pessoa fazendo o mesmo. Cada vez que entra uma embonecada toda sorrisos pedindo pelo gerente, eu tenho vontade de gritar "Corra enquanto pode!".
Mas fico quieta. Todo mundo tem que ter seu primeiro emprego de bosta. E o meu foi esse.
Chega uma hora em que a adolescência acaba e a gente começa a querer trabalhar.
Pra algumas pessoas é uma necessidade, pra ajudar em casa. Pra outras é aquela história de ter seu próprio dinheiro, não ter que ficar pedindo pros pais, dependendo de mesada. Eu tinha que pagar a faculdade.
Cada grupo social tem um padrão para o primeiro emprego. O pessoal mais pobre vai ser faxineiro, office boy, essas coisas. Tem gente que procura trabalho em escritório, atendimento em banco, aprendiz de qualquer coisa.
No meu círculo, as meninas iam trabalhar em loja de shopping.
Quando chegou a minha vez, foi pra lá que eu fui.
A verdade é que todo primeiro emprego é uma bosta, não importa a área. Além do trabalho em si ser sempre aquilo que ninguém mais quer fazer, Você ainda não sabe nada sobre nada e a empresa, que sabe disso, monta em cima.
A chefe inventa reunião, você vai. Inventa regra sem sentido, você segue. Diz que você não está se esforçando, você acredita. Faz de conta que seu cargo é disputado e importante pra te fazer se decidar e você fica lá, trabalhando com medo de ser mandado embora por qualquer coisa.
Mas a gente não sabe disso quando resolve trabalhar.
É por isso que eu fiz um currículo todo bonitinho, pus uma foto bonita e fui toda produzida entregar nas lojas. Mais de 50 lojas em 3 shopppings. Entrava toda sorridente, chamava o gerente entregava os papéis como se eu tivesse nascido para vender roupas.
Parecia uma ovelhinha retardada indo pro matadouro achando que, sei lá, tá indo pastar. E você só percebe o papel que fez quando vê outra pessoa fazendo o mesmo. Cada vez que entra uma embonecada toda sorrisos pedindo pelo gerente, eu tenho vontade de gritar "Corra enquanto pode!".
Mas fico quieta. Todo mundo tem que ter seu primeiro emprego de bosta. E o meu foi esse.
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quarta-feira, dezembro 05, 2007
Entre a vitrine e o estoque - Memórias de uma vendedora de shopping
Capítulo 13 - Colegas de trabalho
Meio tonta de sono e ressaca, abri os olhos. Vasculhei à minha volta com o olhar tentando identificar onde estava. A luz da manhã invadia o quarto por entre uma tira torta da veneziana na janela, iluminando só um filete do ambiente. O suficiente para evidenciar o pó que subia do carpete no chão, uma calça masculina da [nome da loja] jogada de qualquer jeito e a parede oposta. Vencendo o incômodo da lente de contato ressecada consegui ler a sigla rabiscada na tinta desgastada: LHP. "Caralho".
Sabe aquela sensação de que você fez merda? O coração disparou e a adrenalina que jorrou no meu sangue afastou o sono rapidinho. Virei o rosto. Pelado, do meu lado, ele.
Meio tonta de sono e ressaca, abri os olhos. Vasculhei à minha volta com o olhar tentando identificar onde estava. A luz da manhã invadia o quarto por entre uma tira torta da veneziana na janela, iluminando só um filete do ambiente. O suficiente para evidenciar o pó que subia do carpete no chão, uma calça masculina da [nome da loja] jogada de qualquer jeito e a parede oposta. Vencendo o incômodo da lente de contato ressecada consegui ler a sigla rabiscada na tinta desgastada: LHP. "Caralho".
Sabe aquela sensação de que você fez merda? O coração disparou e a adrenalina que jorrou no meu sangue afastou o sono rapidinho. Virei o rosto. Pelado, do meu lado, ele.
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quinta-feira, novembro 22, 2007
Entre a vitrine e o estoque - Memórias de uma vendedora de shopping
Capítulo 21 - Palestra (des)motivacional
Hoje tivemos que ir para o [outro shopping], participar de uma reunião, não disseram exatamente de quê.
Encontrei a [vendedora xis] no hall do elevador, fomos juntas para o décimo sexto andar.
Era uma palestra motivacional. É foda ser obrigado a ficar ouvindo um babaca falando sobre vestir a camisa da empresa quando se trabalha em uma loja. Essa merda de empresa jamais veste a minha camisa. E cobra pela dela - só tenho 50% de desconto nas roupas que sou obrigada a comprar para usar enquanto trabalho.
O discurso de hoje incluia pérolas como "você tem que investir na sua imagem. Como vai vender uma blusinha fashion pra cliente se você está de regatinha básica? Precisa ter as mais elaboradas também!". É a loja que paga a merda da blusinha?
Outra: não é legal pegar as coisas e sair no minuto exato em que acaba seu horário se você perceber que a loja está com movimento e seus colegas precisando de ajuda. Tem que ter um sentimento de equipe, uma solidariedade.
Quantas vezes a loja teve uma postura solidária quando precisei? Quando fiquei de exame na faculdade não pude sair mais cedo pra estudar. Tive cólica num domingo e saí mais cedo. Contaram como folga.
E hoje, então? Duas horas nessa palestra ridícula sobre métodos de venda e eu ainda tenho que fazer meu horário normal na loja. Duas preciosas horas da minha vida jogadas fora.
Eu só não mando a tiazinha do RH à merda porque sei que esse é só o papel que ela tem que cumprir. O trabalho dela é falar bosta pra gente. O nosso é vender calça skinny pra mulher gorda.
No fim do mês, cada um ganha seu salário, paga suas contas e pronto.
Hoje tivemos que ir para o [outro shopping], participar de uma reunião, não disseram exatamente de quê.
Encontrei a [vendedora xis] no hall do elevador, fomos juntas para o décimo sexto andar.
Era uma palestra motivacional. É foda ser obrigado a ficar ouvindo um babaca falando sobre vestir a camisa da empresa quando se trabalha em uma loja. Essa merda de empresa jamais veste a minha camisa. E cobra pela dela - só tenho 50% de desconto nas roupas que sou obrigada a comprar para usar enquanto trabalho.
O discurso de hoje incluia pérolas como "você tem que investir na sua imagem. Como vai vender uma blusinha fashion pra cliente se você está de regatinha básica? Precisa ter as mais elaboradas também!". É a loja que paga a merda da blusinha?
Outra: não é legal pegar as coisas e sair no minuto exato em que acaba seu horário se você perceber que a loja está com movimento e seus colegas precisando de ajuda. Tem que ter um sentimento de equipe, uma solidariedade.
Quantas vezes a loja teve uma postura solidária quando precisei? Quando fiquei de exame na faculdade não pude sair mais cedo pra estudar. Tive cólica num domingo e saí mais cedo. Contaram como folga.
E hoje, então? Duas horas nessa palestra ridícula sobre métodos de venda e eu ainda tenho que fazer meu horário normal na loja. Duas preciosas horas da minha vida jogadas fora.
Eu só não mando a tiazinha do RH à merda porque sei que esse é só o papel que ela tem que cumprir. O trabalho dela é falar bosta pra gente. O nosso é vender calça skinny pra mulher gorda.
No fim do mês, cada um ganha seu salário, paga suas contas e pronto.
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quinta-feira, novembro 08, 2007
Entre a vitrine e o estoque - Memórias de uma vendedora de shopping
Capítulo 5
Não-fumantes que fumam
Odeio fumar. Demais. Não vejo graça nenhuma ficar no meio daquela fumaça, infestando meu cabelo, minhas roupas. Sinto como se estivesse enfiando um escapamento na boca.
Eu não fumava antes da loja. Aí percebi que os fumantes sempre tiram um intervalo de uns quinze minutos no meio do dia pra acender um cigarro. Tentei sair pra "tomar um ar fresco" outro dia e tomei um come. A loja tava cheia, aquela playboyzada olhando, olhando sem comprar. Ar fresco não é vício, não merece intervalo, "se não tem o que fazer, vai baixar estoque".
E os colegas espairecendo à vontade no meio da fumaça. Então foda-se. Decidi que, pra eles, eu fumo. Acabei de entrar nessa loja, esse papo ainda cola; além do que, nunca mencionei nada a respeito antes. A [colega-amiga], que fuma de verdade, costuma sair comigo pra me dar cobertura.
Tenho três maços na bolsa. Um eu comprei, o resto peguei usado dela. Um do câncer, com aquele cara da perna amputada, o da impotência, que tem um cigarro com cinzas caídas sugerindo uma broxada, e o da menina asmática. Esse último me incomoda um pouco, mas é melhor que o dos ratos. Fico dividindo o conteúdo entre eles, levo o mesmo durante uns dias.
De vez em quando, dá merda. Outro dia, encontrei o [gerente] numa dessas escapadas. Eu tava sem a [colega-amiga], tive só tempo de acender um cigarro, dar um trago muito a contragosto e ele chegou.
"Opa. Isqueiro?". Emprestei o meu para ele acender o dele. Ele começou a fumar normalmente e eu fiquei desesperada, sem saber o que fazer. Dei mais dois tragos e deixei cair, fingindo um acidente. "Merda". Ele ofereceu outro. "Não, deixa quieto. Já era o segundo... Melhor ir com calma, to querendo desapegar. Vou dar um pulo no banheiro e depois volto pra loja".
Lavei minha boca, as mãos fedidas de tabaco, o rosto cansado. Olhei-me no espelho e mentalizei: "coragem, nega./ Só faltam R$ 870 pra bater a meta de hoje". Eram 17h40 ainda.
Não-fumantes que fumam
Odeio fumar. Demais. Não vejo graça nenhuma ficar no meio daquela fumaça, infestando meu cabelo, minhas roupas. Sinto como se estivesse enfiando um escapamento na boca.
Eu não fumava antes da loja. Aí percebi que os fumantes sempre tiram um intervalo de uns quinze minutos no meio do dia pra acender um cigarro. Tentei sair pra "tomar um ar fresco" outro dia e tomei um come. A loja tava cheia, aquela playboyzada olhando, olhando sem comprar. Ar fresco não é vício, não merece intervalo, "se não tem o que fazer, vai baixar estoque".
E os colegas espairecendo à vontade no meio da fumaça. Então foda-se. Decidi que, pra eles, eu fumo. Acabei de entrar nessa loja, esse papo ainda cola; além do que, nunca mencionei nada a respeito antes. A [colega-amiga], que fuma de verdade, costuma sair comigo pra me dar cobertura.
Tenho três maços na bolsa. Um eu comprei, o resto peguei usado dela. Um do câncer, com aquele cara da perna amputada, o da impotência, que tem um cigarro com cinzas caídas sugerindo uma broxada, e o da menina asmática. Esse último me incomoda um pouco, mas é melhor que o dos ratos. Fico dividindo o conteúdo entre eles, levo o mesmo durante uns dias.
De vez em quando, dá merda. Outro dia, encontrei o [gerente] numa dessas escapadas. Eu tava sem a [colega-amiga], tive só tempo de acender um cigarro, dar um trago muito a contragosto e ele chegou.
"Opa. Isqueiro?". Emprestei o meu para ele acender o dele. Ele começou a fumar normalmente e eu fiquei desesperada, sem saber o que fazer. Dei mais dois tragos e deixei cair, fingindo um acidente. "Merda". Ele ofereceu outro. "Não, deixa quieto. Já era o segundo... Melhor ir com calma, to querendo desapegar. Vou dar um pulo no banheiro e depois volto pra loja".
Lavei minha boca, as mãos fedidas de tabaco, o rosto cansado. Olhei-me no espelho e mentalizei: "coragem, nega./ Só faltam R$ 870 pra bater a meta de hoje". Eram 17h40 ainda.
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